Affonso Duprat O telefone toca, estridente. Alô, alô, planeta terra. Cobranças, dívidas, puxões de orelha. Crepita. 0800. Telemarketing disfarçado. Alucinógenos incrementados com carinhas felizes. Quem atende telefone fixo hoje em dia? Restaram as poucas almas sobreviventes – que recebem, às vezes, duas ligações do plano funerário por dia. Uma receita mórbida, qual será a formação de quem está na linha, perdoem-me o trocadilho, por um fio? Nas últimas, um octogenário perdeu a linha com uma atendente que insistia na venda de um caixão de madeira nobre. Para adiantar o processo, a preferência é pela cremação, respondeu o simpático senhor, funcionário aposentado do Greenpeace. Em sua cabeça, seriam dois coelhos com uma só cajadada, já que as árvores todas estão condenadas, de maneira ou outra. Pessimismo à parte, essa gente de telemarketing não precisa ter só sangue frio, mas manter o tom bem-humorado, sem ser muito otimista, porque, cá entre nós, pode acontecer a qualquer momento, inclusive segundos antes da chamada telefônica. Se o telefone toca sem parar, quem garante que a pessoa do outro lado da linha já não foi para as cucuias? “Parcelar os ritos funerários em dez, vinte vezes no cartão”. A dívida ad-eternum. Pagar de uma vez para ter um desconto, no pix, é avareza. Liquidar os ritos, jogar-se do penhasco, se espatifar. É algo ecologicamente correto? E a recente moda do adubamento cadavérico nos EUA. “Faça uma composteira do seu ente querido”. Que não seja no canteiro de tomates cerejas e manjericão. A morte é mórbida, mas pode ser engraçada – a depender do comediante. Um palhaço famoso de São Paulo deixou o testamento por escrito, embolado dentro de uma cartola de lantejoulas: fui!. Seu nome: Lacônico. Até que, enfim, calou-se para sempre. A morte lhe prestou esse favor. Na linha com a funerária, minutos antes, veio a piada toque toque, seguido de um sonoro uníssono. PS: que 2023 seja um ano menos mórbido, é bom deixar uma secretária eletrônica no jeito, nunca se sabe…