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Ago25

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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(continuação)

«Em 1870 publicou Eça de braço dado com Ramalho o Mistério da Estrada de Cintra, romance literariamente banal que não encerra nada que possa acreditá-lo como ponto de partida duma renovação literária. Em França, onde está necessariamente a nossa tábua de referências, esse livro passaria baralhado com a variada produção capa-espada de Ponson du Terrail e companhia. A essa data tinha Camilo já dado a lume Coração, cabeça e estômago, de que, diga-se a título de curiosidade pura, está traduzida para francês a terceira parte sob o título de Mariage de Silvestre. Este trabalho originalíssimo, sim, poderia considerar-se como marco miliário no caminho do naturalismo e padrão duma nova era. Sob o ponto de vista de observação e de linguagem vale incomparavelmente mais que o Mistério da Estrada de Cintra que beneficiou do espavento que lhe proporcionou a Gazeta com publicá-lo em folhetins e, corolariamente, do consenso público, terreno movediço em que não pode estear-se um critério de qualidade.

Pois não obstante o seu medíocre estofo, ausência de novidade impressiva, Camilo diria dele, é verdade que em carta datada de 1886 dirigida a António Maria Pereira, editor dum e doutro: Já lhe agradeci e li o Mistério da Estrada de Cintra. Achei-o admirável pelas brilhantes audácias de linguagem. Foi esse livro que iniciou a reforma das milícias literárias indígenas, a tropa fandanga de que eu fui cabo de esquadra...»

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«Em 1871 a bela e já celebrada comandita Eça e Ramalho lança o panfleto mensal das Farpas. O número de Maio abre com o balanço da vida portuguesa, da autoria do primeiro, e prossegue no domínio da intelectualidade: Olhemos agora a literatura. A literatura -- a poesia e romance -- sem ideia, sem originalidade, convencional, hipócrita, falsíssima, não exprime nada: nem a tendência colectiva da sociedade nem o temperamento individual do escritor. Tudo em torno dela se transformou, só ela ficou imóvel. De modo que, pasmada e alheada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela.»

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«De resto quando um sujeito consegue ter assim escrito três romances, a consciência pública reconhece que ele tem servido a causa do progresso e dá-se-lhe a pasta da Fazenda.»

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«Os virotes não eram lançados particularmente contra Camilo que não compusera apenas três novelas e não só não era ministro de Estado como lhe fora negado um mísero emprego na Alfândega. Mas, despedidos para o monte, apanhava por tabela! De resto a crítica errava a pontaria, atirando aos pés para a pobre e ingénua literatura portuguesa tão medrosa no patológico como respeitadora da moral.

Aceitamos de boa mente que Camilo tenha resvalado algumas vezes aos dislates abrangidos pelo anátema com que Eça fulminou a republiqueta literária. Mas essas quebras resgatou-as de sobejo na sua obra pluriforme, onde a observação justa do real supera aos arremedos do artifício, o verdadeiro drama humano ao especioso, a fala colhida no tráfego da vida corrente com seu carácter, seus módulos, seus filamentos tácteis de ser animado, ao verbo empalhado, incolor ou fictício, sobretudo, oh, sobretudo à ingresia formada, metade por pedanteria, metade por ignorância, com vozes estrangeiras.

O trecho não alvejava Camilo, mas na omissão, que mais não fosse, do seu nome, residia uma crítica afrontosa pelo que tinha de injustamente negativo. Essa omissão ia-se adensando de ano para ano, enovelada em grosso e feio pecado.»

(continua)

publicado às 19:03