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Jul25
«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.
Manuel Pinto





«Quando em 1866 surgiu na Gazeta de Portugal o nome de Eça de Queirós, a revista estava em franco declínio. Descortina-se isso hoje perfeitamente com a nitidez de visão de que beneficiam as coisas espirituais a distância. Estava em franco declínio e tal facto explica o acolhimento que acertou receber Eça, estreante de prosa apocalíptica, destituída de bom senso e de gramática, mascavada de francesia -- bárbara veio a titulá-la um seu compilador e figura relevante do cenáculo.
Na Gazeta pontificava António Feliciano de Castilho, hierofante na reverência que lhe tributavam e ele exigia, e, ainda que meteoricamente, aparecia Camilo com um destes retalhos de prosa que ofuscavam todo o resto.»

«A revista em decadência, a meter água, de colunas em branco, as colunas dos hebdomadários à míngua de colaboração, longas e desesperadoras como léguas das velhas, pegou do manuscrito que lhe levava o inesperado samaritano (Eça) sem lhe provar sequer o travor. A estreia devia ter sido bafejada por estes ventos mornos do descampado.
Riam-se dele? Sim, riam-se dele, uns com a conspícua suficiência de quem eram, outros bolónios de todo. Parece que o próprio director, António Augusto Teixeira de Vasconcelos, o não tomava muito a sério. Realmente não se podia conceber nada de mais rebarbativo para o tempo que a forma das Notas Marginais : ...
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Este fraseado que arrepelava a sintaxe e o siso do discurso: "rasgavam com os ossos dos cotovelos as carnes moles" e "voluptuosidades mais mórbidas que os orvalhos da lua" era para fazer dar pulos de sagúi ao velho bonzo do Castilho e arrancar uma gargalhada de gozo, se a hipocondria o não atanazasse, ao cenobita de Seide.»


«Camilo, é verdade, começou a olhar para o jovem criminoso com ar divertido. Embora espírito alevantado e sensível a todas as radiações novas, mas com centro de gravidade no senso comum, nada mais natural que se sentisse em relação a ele como Hércules perante um súbdito da rainha Pigas. Em carta dirigida a Castilho, datada de 1866, quando Eça já ia levado imperturbavelmente Gazeta em fora, lavrando em todos os números o mesmo pechisbeque, perpassa um breve frouxo de mofa: "Esperemos a primavera. Olhe que isto aqui está frio. O quintal está plantado de couve, fava e ervilha. O sol tem umas frialdades moles, como diz um Eça de Queirós nos folhetins da Gazeta de Portugal".»

«Camilo, anos andados, lançava, sim, uma profecia que equivale à diagnose segura da carreira que Eça mal começava de tentear: "Este rapaz vem tomar a vanguarda de todos os romancistas". Palpita no intuspectivo de tais palavras a fatalidade inexorável a que está adstrita a evolução das coisas. Mas com elas também é certo que o gigante queria exprimir que tão pouco tinha medo de competições como das sombras que subiam do Orco para o tragar.»


«Não é menos fora de dúvida que um escritor da craveira de Camilo olhe com mais curiosidade para o nascer do sol do que para o ocaso. Todos os que apareciam a bater um coturno singular ou com ares de novo no proscénio das letras o interessavam. Aos cadáveres embalsamados da Acrópole tratava, sim, com obséquio formal. Nem sempre lhe era despiciendo o seu pitoresco; a sua experiência filológica; a sua cortesia circunspecta; a seriedade por vezes cómica das suas dramatis personae.
Embora a correspondência trocada pareça testemunhar comércio útil e fervoroso com este e aquele, nada no fundo mais fátuo. Camilo era um homem que possuía em grau muito inferior o poder de iludir-se.»
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«Sempre que o móbil pessoal, estima ou desafecto, não lhe influenciava a pena, o parecer e crítica de Camilo eram modelos de acuidade e de observação».
(continua)
publicado às 17:50