AS MULHERES DA CANTAREIRA

Naturalmente, antes de as manhãs

pegaram fogo a todas as palmeiras,

gastaram elas os perfumes nas rochas,

levaram os seus seios para as ondas,

lavaram os sexos no rio,

lavraram os limos com os lábios.

Anteriores às gaivotas,

desenharam o seu voo nas águas,

descrevendo na areia

o coleante deambular dos vermes,

vendidos no termo das semanas

aos amantes da pesca.

Virtualmente, antes de o Inverno

lhes mudar o semblante,

comer à sua mesa e violá-las,

elas eram só música,

trazendo, levando, conduzindo

todos os barcos pelo mar do seu corpo.

Mais antigas que os ventos e a paisagem,

muitas vezes fizeram de sereias,

de estrelas breves consumidas

em vinho ou em cerveja,

outras de frio aço e aguardente,

alguns momentos de tabaco loiro.

(São putas? São fidalgas? São senhoras?

Netas bastardas de Raul Brandão?)

Meigas, transparentes, adejantes,

antes de os elementos

cismarem em criá-las,

já elas eram feitas

como deusas cumpridas

em fumo, mito e névoa.

Como estátuas fenícias?

Como estátuas

António Rebordão Navarro

in Ao Porto

Colectânea de Poesia Sobre o Porto

Adosinda Providência Torgal

Madalena Torgal Ferreira

Publicações Dom Quixote