Eis alguma poesia da vencedora do Prémio Internacional Palavra Ibérica de 2009:

As vindimas da noite

As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,

na noite onde se despenham as ravinas,

o corpo insidioso arrastando o mar, a boca,

os joelhos sonâmbulos,

os barcos que se cobrem de limos, grãos de areia,

esquecimento.

As harpas do horizonte ergueram-se já,

como árvores frondosas.

Nas colmeias de sangue, fervilha a rosa,

a corola verde, o tumultuoso nome,

o timbre infinito.

As ancas, os ombros, as falésias flutuariam,

na noite,

no vazio errante de um coração silábico

que se abre, suspenso,

por dentro das estrelas, à deriva.

No vazio leve das miragens, esconde-se,

nas vindimas da noite,

o corpo dormente da eternidade que rebenta,

silenciosa,

nos punhais ébrios de salsa, cinza,

aspergindo, na névoa minuciosa,

o ruir das telhas, entre ervas, dedos,

acariciados lentamente.

Paisagem aquática

Violinos de água, cavalos, veados de música,

florestas nocturnas de água e ciprestes.

E a lua, sempre.

Passa nos olhos, no cume da montanha,

a sombra que torna as palavras lentas

e os olhos turvos de espuma,

no silêncio espasmódico de beber gota a gota

o espaço que é assim,

lacustre nos olhos do assombro.

Porque falta o sol.

E um girassol de palavras que o possa abrir,

na noite, para cobrir a nudez, o vazio,

um esqueleto de nuvens em busca do oiro,

da vertigem,

desperto na erupção da bruma, do sangue,

 a língua por dentro movendo o besouro negro

(antigo), onde tudo é intolerável,

entre paisagens aquáticas, dunas febris,

côndilos esfacelados, fragmentos de música,

magnólias, constelações,

linhas repassadas,

entre retalhos meniscais.

Maria do Sameiro Barroso