12
Jan24
Maria do Rosário Pedreira
Disseram-nos que tínhamos a sua permissão para nos tornarmos marido e mulher, e foi só isso. Só isso.
Decidi então que pelo menos iria ter um vestido que não fosse feito da serapilheira que usava para trabalhar. E assim comecei a roubar pedaços de tecido e acabei com um vestido impossível de imaginar. A blusa era feita de duas fronhas que se encontravam na cesta de costura de Mrs. Garner. A frente da saia era um bocado de tecido usado para tapar uma cómoda, no qual uma vela caída fizera um buraco, e uma das antigas faixas que Mrs. Garner usava à cintura e na qual costumávamos ver se o ferro de engomar já aquecera. Ora as costas foram um problema durante muito mais tempo. Parecia-me que não conseguia encontrar nada cuja falta não fosse notada de imediato. Porque depois eu teria de desmanchá-lo e colocar os pedaços onde os encontrara. O Halle era paciente e esperou que eu acabasse de costurar o vestido. Sabia que não haveria casamento sem que eu o tivesse. Acabei por tirar uma rede mosquiteira que estava presa a um prego no celeiro. Usávamo-la para coar as geleias e conservas. Lavei-a e branqueei-a o melhor que consegui, e depois cosi-a para formar a parte de trás da saia. E ali estava eu, no vestido mais horrível que se possa imaginar. Apenas o meu xaile de lã evitava que me parecesse com uma assombração. Mas ainda nem tinha catorze anos, e acho que era por isso que estava tão orgulhosa.
Toni Morrison, Beloved, trad. de Maria João Freire de Andrade