“De repente, veio das ruas um alvoroço. Um garoto estava vendendo o que parecia ser uma edição especial do Neue Freie Presse, e os transeuntes arrancavam os jornais de sua mão, assim que ele conseguia tirar outros da sacola, pendurada no ombro. O garçom falou com uma pessoa que havia acabado de conseguir um jornal. Werthen viu os ombros do rapaz caírem, como se atingido por um golpe forte. Ele levou a mão até o rosto, murmurando:
__ Não pode ser.
__ Karl—disse Berthe, agarrando sua mão.—Será a guerra?
Werthen chamou o garçom, que veio até a mesa deles.
__ Desculpe, perdoe a emoção. Hoje é um dia terrível.
__ O que foi?—perguntou o advogado.
__ Nossa imperatriz morreu. Assassinada em Genebra!”
(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de agosto de 2013)
Dentro da ficção policial, um dos filões mais bem-explorados nos últimos tempos é aquele que usa figuras históricas enredadas em crimes. Entre seus praticantes destacam-se Jed Rubenfeld (tramas envolvendo Freud) e J. Sydney Jones, de cuja série Viennese Mysteries acaba de ser lançado no exterior o quarto título (The Keeper of Hands). O leitor brasileiro, por enquanto, terá de se contentar com a recente tradução de O Espelho Vazio [The Empty Mirror, 2009, realizada por Ricardo Gomes Quintana].
O romance de estreia de Jones é ambientado no império austro-húngaro (já com sinais de declínio, nos derradeiros anos do século XIX), centro da “sifilização” européia —não é mero chiste: há uma seita que congrega centenas de aristocratas e poderosos, cujo caráter foi se distorcendo em razão dos efeitos mais severos da sífilis, e que pode estar por trás das atrocidades cometidas ao longo da narrativa. O protagonista, advokat Karl Werthen, intromete-se na investigação de chocantes assassinatos nos quais os cadáveres são desovados num dos cartões-postais de Viena, o Prater, porque um cliente, o grande pintor Gustave Klimt, é preso como suspeito (uma das vítimas era modelo sua). Pede a colaboração do teórico pioneiro da ciência criminalística, numa época em que os métodos policiais ainda eram toscos: Hanns Gross, famoso também como o pai do psicanalista Otto Gross, figura lateral, mas de considerável importância nas biografias de Freud e Jung (de quem foi paciente).
Werthen & Gross (cujas personalidades contrastantes, como é de praxe nesse tipo de associação heróica, são exploradas primorosamente por Jones) conseguem inocentar Klimt e descobrem o assassino. Entretanto, indícios de que tudo —incluindo a identidade do criminoso— fora encenado para encobrir uma conspiração palaciana para a qual foi necessária a eliminação preliminar do príncipe-herdeiro Rodolfo, anos antes e, logo a seguir à onda de crimes, a da imperatriz Sissi (execuções disfarçadas como suicídio e atentado realizado por um anarquista meio desequilibrado), fazem com que a dupla enfrente a feroz burocracia habsburguiana e o descrédito geral quanto a suas teorias, para amarrar todos os fios[1]. Dessa forma, o judeu de família assimilada Werthen (com todos os elementos de tensão que tal condição acarreta numa sociedade onde o antissemitismo está sempre prestes a aflorar[2]) se volta para a sua vocação inicial, a advocacia criminal, que preterira para seguir a mais cômoda e vantajosa financeiramente seara dos espólios e heranças.
Ao se enfronhar nas questões sexuais (além da onipresente sífilis, o “suspeito” Klimt escandalizara Viena com um nu, no qual se encontra o espelho-referência para o título[3]), legais e políticas do império que representa a quintessência de uma certa Europa ainda presente no inconsciente coletivo (foi dela que veio Hitler)[4], o autor de O Espelho Vazio se mantém bem fiel à tradição de Conan Doyle (que, no livro, desperta a ira de Gross, de quem usurpara os métodos sherloquianos[5]), o qual explorava menos o mistério (quem matou?) em suas histórias do que a argúcia e tenacidade do seu detetive contra um adversário oculto na “sombra”, com um poder subterrâneo, disseminado por várias esferas, das autoridades “legítimas” às do submundo. Não é à toa que Viena também sempre foi famosa por seus esgotos labirínticos.
De fato, um dos encantos do romance é o aproveitamento do espaço urbano vienense (embora parte da narrativa transcorra em outros lugares, principalmente quando Werthen & Gross investigam a morte de Sissi em Genebra, e lá sofrem um atentado). Literalmente acompanhamos os personagens pelos mais diversos logradouros de uma metrópole avançada e paradoxalmente tacanha, e sempre de uma forma muito vívida, natural:
“Werthen era um estudioso das hipocrisias da Viena de fins do século XIX. O desenho dos prédios da Ringstrasse informavam, em particular, suas pequenas histórias, fornecendo uma introdução que falava de impostura e artifício.Essas novas edificações, falsas, tinham todas uma aparência que simbolizava sua função: uma ópera neorrenascentista como o centro das artes; um parlamento neoclássico que era uma tirada de chapéu para a arquitetura grega e a casa da democracia; o Rathaus neogótico, símbolo da riqueza da burguesia. Ali, à sua frente, estava o Burgtheater, com o auditório em forma de lira, que pretendia evocar as origens gregas da dramaturgia. Os vienenses eram ótimos com símbolos.
O Burgthater era uma das monstruosidades mais clamorosas do Ring, pensava Werthen. Instalado havia 16 anos no prédio, com uma expansão de custos contínua, que ultrapassara em muito a estimativa inicial, o Burgtheater ou Teatro da Corte—com pinturas decorativas no teto, feitas por Klimt, entre outros—fora inaugurado em 1888, com grande fanfarra e quatro mil lâmpadas elétricas iluminando a fachada. Mesmo hoje, dez anos depois, a rede elétrica da cidade ainda tinha um longo caminho a percorrer. A noite continuava a ser iluminada a gás, ao contrário de outras capitais européias, onde a eletricidade estava se tornando o padrão rapidamente…”
Parece-me que boa parte do enredo foi idealizado para permitir esse ir-e-vir dos personagens por uma topografia muito amada pelo autor.
É de se lamentar que a versão brasileira não acompanhe esse cuidado, inclusive pela sempre irritante barafunda dos nomes próprios dos vultos históricos. Ainda assim, a leitura deixa com água na boca para os futuros mistérios vienenses de Mr. Jones.
[1] Jones narra as pompas fúnebres para a célebre”imperatriz viajante” (também vítima da sífilis), numa cena em que há a participação de Mark Twain: “…Rodolfo não cometeu suicídio nove anos atrás, mas foi assassinado por gente próxima do poder, que não tinha nenhuma admiração por seus modos liberais ou por suas ideias pró-magiares. Eu tenho a impressão de que estão dizendo a mesma coisa sobre sua pobre mãe, que também tendia a romantizar os húngaros…”
[2] De fato, a primeira teoria para a motivação por trás dos crimes era baseada na tradicional suspeita de sacrifícios humanos em rituais judaicos.
[3] “Werthen lembrou-se de que a coisinha núbil, doce e jovem que Klimt retratara na capa da revista da Secessão [movimento de protesto dos artistas da época contra as normas tradicionais]escandalizara o conservadorismo vienense. A garota/mulher aparecia completamente nua e aparentava não estar nem um pouco preocupada com isso. Tranças longas cobriam parcialmente os seios, e ela segurava um espelho com a mão direita. Werthen apreciara em especial o simbolismo daquele espelho vazio. O que o homem moderno veria nele, a luz incandescente da verdade ou um mero reflexo de sua vaidade tola?”
[4] “O imperador anulava continuamente a vontade do parlamento, governando pela brecha aberta pelo Parágrafo 14 da Constituição, que permitia o controle por decretos de emergência. O sufrágio masculino universal—e menos ainda o voto feminino—ainda estava longe. Aquelas audiências, duas vezes por semana, era o mais próximo da democracia a que o velho imperador se dava ao trabalho de chegar. Esses encontros individuais, Angesicht zu Angesicht sehen, ou cara a cara, como eram chamados, duravam apenas alguns minutos, na melhor das hipóteses. Tempo suficiente para algumas palavras ensaiadas, mas elas serviam como válvula de escape para o povo. Afinal de contas, que necessidade tinham eles de um parlamento operante quando podiam falar com o imperador em pessoa toda vez que desejavam.
O burocrata mais famoso da Europa, Francisco José supervisionava pessoalmente o funcionamento de seu vasto império…”





