A Monarquia Habsburgo governou por mais de 800 anos, e conheceu seu ocaso após a Primeira Guerra Mundial. Acostumados a lidar com um Império multicultural e multinacional, onde a nacionalidade era uma escolha, Stefan e seu filho Wilhem adotaram países diferentes como lar: A Polônia e a Ucrânia. Tais nações ainda não possuíam fronteiras definidas, ou um sistema de governo independente. O nacionalismo era um conceito novo e bastante em voga no final do século XIX, que viu a criação da Alemanha e da Itália. Pai e filho entendiam a importância do conceito, e sonhavam com a criação de dois Estados Nacionais sob a égide do império Habsburgo.
E então, num dia de junho de 1914, Francisco Ferdinando e sua esposa são assassinados na Sérvia, antecipando uma longamente planejada investida do império Austro-Húngaro ao país ofensor e desencadeando a Grande Guerra. Wilhem junta-se aos ucranianos na tentativa de protegê-los dos avanços bolcheviques, Stefan atua em prol dos interesses poloneses. Mas os Habsburgo, aliados do império alemão, não ganham a Guerra, e deixam de existir. Suas terras são divididas pelo Tratado de Versalhes, com bastante desvantagens para o lado perdedor.
Contudo, Wilhem não desiste de seu sonho ucraniano, e o perseguiria por toda sua vida. De arquiduque, tornou-se coronel de uma legião armada, candidato a rei, exilado em Paris e, finalmente, agente secreto contra os regimes de Hitler e Stálin. Wilhem esteve a poucos passos de tornar-se chefe de uma nação e uma figura importante nos anais da História, mas suas tentativas, embora honrosas, foram infrutíferas. O sobrenome famoso e o zelo de historiadores ucranianos permitiram que Timothy Snyder nos apresentasse O Príncipe Vermelho.
Com uma prosa envolvente, o autor aproveita a história de um arquiduque obscuro para descrever um dos períodos mais turbulentos da Europa. O ponto de vista é inusitado, já que estamos acostumados a ler sobre o lado vencedor. Wilhem teve uma vida complexa, recheada de aventuras, mas suas ambições não se concretizaram. Foi herdeiro de um império, mas morreu prisioneiro da União Soviética. Teve a oportunidade de viver como um dândi em Paris, mas se envolveu num escândalo que quase acabou definitivamente com sua reputação. Em suma, não é o material padrão de uma biografia.
Mas, como a maioria dos biógrafos, Timothy Snyder admira o objeto de sua obra. Usando de uma técnica narrativa bastante voltada para a estética, o autor deixa a precisão factual de lado para enaltecer algum traço de personalidade de Wilhem. O texto é lido quase como um romance, com poucas referências diretas aos documentos nos quais o escritor se baseou. Por outro lado, está claro que ele pesquisou a fundo a vida deste Habsburgo, conhecido como Príncipe Vermelho por sua simpatia aos direitos do povo.
A leitura de O Príncipe Vermelho é uma boa oportunidade para entender a importância dos países do leste europeu nos acontecimentos que marcaram o século XX. Mas, mais que isso, é uma excelente forma de mostrar que o relato da vida de uma pessoa cujas ambições não se concretizaram pode ser tanto, ou mais, interessante do que a biografia dos grandes personagens.
O Príncipe Vermelho
Timothy Snyder
Título original: The Red Prince: The secret lives of a Habsburg Archduke
Tradução: Andrea Gottlieb
406 Páginas
Preço sugerido: R$ 49,90
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