
Por José Reinaldo do Nascimento Filho
Terminei.
“Macduff – Quais as três coisas que a bebida provoca especialmente?
Porteiro – Ora, senhor, pintura de nariz, sono e urina. A luxúria, senhor, ela provoca e desprova: provoca o desejo, mas liquida o desempenho. Portanto, pode-se dizer que muita bebida equivoca a luxúria: ela a ajuda e a estraga: empurra para cima e empurra para baixo…” (p.484)
Podemos afirmar que esse foi o momento mais singelo dessa que é a mais curta tragédia do dramaturgo inglês, porque todo o resto é puro Sangue.
Macbeth, um dos mais promissores e influentes generais do rei Duncan da Escócia, após aniquilar um grupo de rebeldes, é nomeado para um posto mais elevado: thane de Cawdo (barão). Em seguida, juntamente com o seu melhor amigo, Banquo, também general, recebe a visita de três bruxas, que lhes predizem seu fado: “ser rei daí em diante”. Não obstante o general ser plenamente cônscio de suas obrigações, arguto nas idéias, e, até então, fiel à corte, imediatamente Macbeth começa a ambicionar tornar-se rei. Todavia, falta-lhe aquilo que é caro à sua esposa: coragem para fazê-lo por si só. Para convencer-lhe a agir, ela então disse:
“Eu já amamentei E sei o quanto É doce o sugar do neném. Mas poderia, enquanto me sorria, Roubar-lhe o seio da gengiva mole E arrebentar-lhe o cérebro, se houvesse Jurado que o faria” (p.470)
Foi o suficiente para Macbeth repensar e concluir:
“Vou e está feito. O sino convida. Não o ouça, Duncan, pois esse dobrar, Pro céu e pro inferno o vai chamar” (p.478)
Estará consumado em breve o regicídio…
Macbeth é coroado. Vive por um curto, mas gratificante período glorioso no seu castelo. Porém, o novo rei teme o amigo, para quem as bruxas predisseram que ele seria rei – pois o atual, não teria herdeiros. Cegado pela ambição, Macbeth contrata dois assassinos para matá-lo. A peça adentra em um campo tão familiar ao visto no Hamlet: o fantasma de Banquo começa a assombrar o seu antigo amigo. Este, por sua vez, num jantar com convidados à mesa, tem acessos de loucura. Os nobres, perplexos com o que viram, dão início as intrigas para depor o Rei.
Novamente, Macbeth recebe conselhos das três bruxas. Estas prenunciam a intenção de Macduff, filho do rei morto, de tomar o trono. Enquanto isso, no castelo do rei escocês, a sua esposa, na tentativa de compreender as profecias das bruxas, enlouquece e passa a perambular pelos corredores esfregando as mãos, com o intuito de limpá-las do sangue dos mortos.
O rei maldito medita sobre o que se aproxima:
“Amanhã, e amanhã, e ainda amanhã Arrastam nesse passo o dia a dia Até o fim do tempo pré-notado. É todo ontem conduziu os tolos À via em pé da morte. Apaga, vela! A vida é só uma sombra: um mau ator Que grita e se debate pelo palco. Depois é esquecido; é uma história Que conta o idiota, toda som e fúria, Sem querer dizer nada”. (p. 567)
A batalha entre os exércitos de Macbeth e do herdeiro direto Maduff se aproxima…
Ambição e Sangue, essas são as duas palavras que sustentam a mais curta e mais violenta tragédia do dramaturgo inglês, William Shakespeare. Que, apesar de não ser tão belo quanto Hamlet, e não cativar como as personagens da peça supracitada, é rica na simplicidade e no poder de sua trama tão bem elaborada e articulada.