Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

Primeiro o que interessa (em um parágrafo…)

Hamlet é uma tragédia de William Shakespeare, escrita entre 1599 e 1601. Na peça, o príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, assassinado pelo seu tio, Cláudio, que, após envenenar o pai (plano revelado pelo próprio espectro do rei morto ao jovem príncipe), toma posse do trono, apressadamente, após casar com a viúva, Gertrudes. Vemos ainda um conturbado relacionamento amoroso entre Hamlet e Ofélia; uma suposta sanidade/loucura do jovem dinamarquês (representada pela escrita em versos e prosa, respectivamente), e não podemos esquecer que no plano de fundo temos a disputa de territórios com a vizinha Noruega liderada pelo príncipe Fortimbrás. A peça traça um convincente e “acessível” mapa psicológico – loucura real e loucura fingida – da personagem Hamlet, além de explorar temas como traição, incesto e corrupção.

Agora, as minhas impressões (em quatro parágrafos…)

Acredito ser impossível estar diante de um clássico, e não ficar temendo a possibilidade do “não gostar da obra” e em seguida se achar um estúpido. Conversando com um colega ontem sobre as minhas dificuldades em gostar do Quincas Borba, de Machado de Assis (atual leitura), e sobre a “obrigação” de gostar dos clássicos, foi que ele me veio com as duas frases “recurso de autoridade” e “capital intelectual”. O primeiro seria, basicamente, sentir-se na obrigação gostar de algo produzido por alguém pelo simples fato de o autor ser consagrado/ter autoridade. Exemplo: achar genial o filme Ata-me, de Pedro Almodóvar, pelo simples fato de ser Almodóvar o diretor; já no segundo ponto, assistir, comprar, ler alguma coisa porque tal pessoa está assinando o projeto. Exemplo: Assistir Bruna Surfistinha, o filme, porque Karim Ainouz – Madame Satã – estava (eu disse estava no projeto) no projeto.

Quando terminei o Hamlet (e isso faz, no mínimo, cinco dias) senti duas coisas distintas: primeiramente, a felicidade intelectual por ter lido um clássico de Shakespeare; e segundo, o alívio por ter lido um clássico e ter gostado “livremente” dele pela sua grandiosidade e qualidade acessível a qualquer público. Hamlet é soberbo. É perfeito. É porque é bom. Perfeito, desde as suas reflexões e frases de efeito – diga-se: “Meus trapos são o adorno da desgraça”; “Farei fantasma quem me detiver”; “Há mais coisas, Horácio, em céus e terras, Do que sonhou nossa filosofia”; ”Ser ou não-ser, essa é que é a questão” -, às suas frases cínicas, sarcásticas e nada amorosas com a “pobre” e bela Ofélia, após ele resolver dar um fim no conturbado início de relacionamento com a dita: “Entra para um convento. Por que desejaria conceber pecadores? Eu próprio sou possivelmente honesto; mas poderia ainda assim acusar-me a mim mesmo de tais coisas, que seria melhor que minha mãe não me tivesse concebido. Sou muito orgulhoso, vingativo, ambicioso, com mais erros ao meu alcance do que pensamentos para expressá-los, imaginação para dar-lhes forma, ou tempo para cometê-los…” (Ato III, Cena I, p.121)

Quando terminei Crime e Castigo, de Dostoievski, enviei uma mensagem via celular para o meu irmão Leonardo sobre a necessidade imperiosa que é ler esse belo exempla Dostoievskiano.

Leiam Hamlet. Ele é bom porque é bom.