A minha vontade de ler Lygia Fagundes Telles era já antiga.

No entanto, aparentemente, a autora encontra-se maioritariamente esgotada, tendo a sua obra sido editada pela Presença. Assim, ao encontrar um dos seus livros na Dejà Lu, a hesitação em trazê-lo comigo foi pouca (e deveu-se ao facto de eu já ter dois livros na mão).

Mesmo sem saber nada sobre o livro - e sem ser um dos "principais" na minha wishlist (a saber: As Meninas, ou Ciranda de Pedra).

Esta obra, de 1980, surge, aliás, quando Lygia Fagundes Telles era já conhecida pelos seus romances - mas é uma obra de ficção curta, ou, aliás, uma obra que derruba barreiras entre ficção e realidade, ao juntar ao conto o relato autobiográfico e a memória.

O livro abre com Os Gatos, um texto sobre, bem, gatos - e sobre Iracema, a gata (ou gato - nunca descobrimos) que surge na vida da narradora, e cujo nome se deve ao facto de ela, no momento, estar a ler e a estudar o romance de José de Alencar. Como se de uma memória de adolescência se tratasse.

O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse o sorriso do gato – ô bicho sutil! Indecifrável. Inatingível.

Temos vários textos curtos, fragmentos, crónicas, contos? E, juntamente com a narradora, viajamos para a China, para países orientais, descobrimos como comunicar com uma mulher, na Sibéria, quando não se fala na mesma língua, quando o que se quer é voltar a prender um botão no casaco.

É confessional, anedótico. O ponto alto talvez seja o conto que partilha o nome com a colectânea, e que relembra aquele episódio de Futurama. Que relembra a guerra, e o amor incondicional, eterno, mas talvez também disciplinado.

Todos os dias, com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina.

Talvez adequado, especialmente, por o livro consistir num conjunto de aparentes memórias. Apenas o cão (a antítese do gato inicial) guarda a memória do jovem; apenas ele se mantém fiel, à espera.

Adorava ler mais da autora, e espero vir a ter semelhante sorte em lojas de usados no futuro.

4/5

O livro encontra-se esgotado, mas poderão ter sorte em alfarrabistas e lojas de segunda mão.