(...) «Ao lado, num toalhete, servia Joana os mesmos pratos ao abade e ao filho, apenas para estes o pão era do alveiro e trazia-lhes o vinho, em vez de cabaça, numa pichorra de Molelos.
Como era muito desembaraçada, acocorava-se no chão, e, lenço descaído sobre os ombros, repartia-se entre as duas mesas; dum lado, a debulhar batatas, a manejar a gadanha, ou trinchante; do outro, de rainha Santa Isabel, apaziguar as testilhas entre Isaac e o pai, suscitadas por dá cá aquela palha, inclusive as vezes que tinham bebido, que a senhora Doroteia, dona de casa muito económica e regulada, mandava sempre uma escassa medida de vinho. Nunca os dois levavam a termo a refeição sem que barulhasssem; isto divertia os operários e obrigava Joana a proferir na sua rude sinceridade:
-- É uma vergonha para pessoas educadas! Vejam lá se acabam!
Ao fim, os homens punham-se a pé de um pulo, e o Zé Cleto, o mais desembaraçado, chegava-se ao padre:
-- O senhor Reitor hoje não tem um cigarrinho para a gente?
A resmungar, porque resmungar era próprio da sua índole, entregava-lhe dois maços de kentucky que Isaac já havia maquiado.
Joana arrumava a loiça, depois de varrer as migalhas para o Moiro que, de olhos fitos e cauda a abanar, estivera desde o princípio a fazer namoro à pitança. Ajudada pelo padre, que lhe punha o cesto de duas asas à cabeça, enfiava no braço direito a cesta-brez, onde ia o panelão do caldo, e, dando as boas-tardes, despedia.
Lá adiante, a coberto do tronco dum castanheiro, Isaac chamava-a:
-- Olhe aqui, que lhe quero uma coisa!
Suspendia-se; aproximava-se num requebro, meio dissimulada, parlamentar:
-- Então que quer? Diga!
O moço buscava-lhe a boca com a boca e cingia-a pela cinta. Abandonando-se, murmurava:
-- Olhe que podem ver! Dianhos, uma mulher da minha idade!
Mas só trocavam beijos, não era propícia a hora. E prosseguia, lépida e mais frescal, para casa do senhor padre, onde a esperava a gralhada dos filhos com mira nos sobejos. A senhora D. Doroteia, ainda que velha e com muita lida, era mulher para pôr tudo direito numa volta de mão. Num ápice vasculhava caçoilas e tachos, arranjando um bazulaque com que atestava uma almofia em que os pequenos se atufavam até às orelhas.
E ambas, enquanto lavavam a loiça, se entretinham de Isaac, um homem doido pelo mulherio, sem emprego e sem lei, que, por aquele caminho, acabava com uns alforges às costas a pedir esmola.
-- Veja prò que a gente os cria, senhora Joana!
E, arrastada na adulação, sabendo que o grande axe de Isaac era o femeaço, Joana dizia:
-- Pra consumição e trabalhos, senhora D. Doroteia! Ai, ele há lá gado mais ruim que as mulheres!?...» ...
(continua)
Testilhas — lutas, brigas, altercações.
Maquiar — surripiar, desfalcar.
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