(...) «Isaac correu a fechar a boca da Carradas com os quatro mil réis; ela, como era uma boa-serás e lhe sentia a sinceridade e consumição, concedeu mais um prazo de vinte e quatro horas.
Estava o dia remansoso, sem ventania. Não havendo perigo de voarem as faúlhas, D. Doroteia lembrou-se de fazer a barrela -- que estava a roupa a encardir nos cestos, há muitas semanas. Para isso chamou a Narcisa, a afilhada que morava a dois passos, e acenderam a fogueira no alpendre, onde havia mais largueza que na cozinha e a lenha estava à mão de semear. Seriam dez horas da manhã, o fogo chamejava rijo, e nuvens densas de fumo esfarelavam-se através da telha-vã sobre a aldeia. Já fervia a dupla de potes e panelões quando D. Doroteia chamou para a mesa. O almoço foi silencioso e breve, e Isaac não provou garfada.
Ao levantar, Isaac perguntou ao pai se podia ir a Borles a cavalo. Como ele não tornasse resposta, cavalgou e desapareceu na velha calçada romana, por entre os pinhais imóveis. Os manos Onofres receberam-no afectuosamente, deram-lhe muitos conselhos, mas quanto a dinheiro, há muito que não viam a pinta duma libra. Cheio de desespero, entrou em casa quando o pai lavrava o óbito do anjinho, dado à terra na véspera. Como era próprio de homem idoso, a caneta tremia-lhe em sacolões nervosos, e cada palavra lhe levava tempo imenso a lavrar. Além disso, a letra era miúda e humilde como de anotações de monge, só para ele, nas margens do homiliário.
  -- Quer que lhe lavre o assento? -- perguntou Isaac, apiedado.
  -- Não, senhor.
Isaac foi sentar-se meditabundo nos degraus do patim. A mãe, mal o viu, teve dó dele, que não almoçara, e apressou-se a servir o jantar. Quando o padre entrou, os vapores da sopa evolavam-se olorosamente das tigelas atestadas. Não obstante o bom caldo de feijão branco e o farto salpicão de lombo, Isaac absteve-se, como de manhã, de tocar em prato. O padre, à sobremesa, perguntou:
  -- Então, não come?
  -- Obrigado; não tenho apetite.
  -- Veja lá... faço-lhe uma tisana... Que tem, senhor? -- questionou a mãe a seu turno, escondendo em sardonismo a sua preocupação.
Isaac despediu um mau sorriso que lhe arregaçou o lábio superior.
  -- Lá se arranje -- tornou ela. -- Já não está em idade de se lhe meter a papa na boca.
O padre continuava o registo quando Isaac se acercou resoluto:
  -- Tenho uma coisa muito grave a comunicar-lhe...
O velho nem pestanejou.
  -- Muito grave...
Continuava com a caligrafia difícil e laboriosa e Isaac rangeu os dentes:
  -- Escuta-me, ou não me escuta?
A pena trémula cantava: enterrado no cemitério desta freguesia...
Isaac deu um salto para ele e, paralisando-lhe a mão, disse de ar sinistro:
  -- Há-de me ouvir primeiro!...
O velho olhou-o de face e, com a voz a estalar de cólera, lançou-lhe:
  -- Oh! malvado, até já do cumprimento das minhas obrigações me queres tolher!» ...
                                                        (continua)

oloroso
n adjetivo
Uso: formal.
que exala olor; aromático, cheiroso, odorante

sardonismo
substantivo masculino
qualidade de quem é sardónico

sardónico
n adjetivo
que denota ironia maldosa; sarcástico, zombeteiro

"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"