(...) «Isaac dobrou a carta, repôs os papéis no seu lugar e disfarçou com arte o arrombamento da escrevaninha. Duas angústias lhe cerravam a garganta: a frustração de seus esforços para encontrar dinheiro, e a hediondez de seus actos avivada pelas lástimas de Norberto e a tristeza que cobria a casa, sensível como uma mortalha de defuntos. Mas de que jeito quebrar a linha do destino? Como todos os seres rebeldes à lei das coisas, animava-o uma grande força de viver que se estribava na curiosidade. Viver para ver os homens, as loucuras, as repúblicas, as estações, para comungar nas infinitas modalidades da terra. Esse instinto, ajudado do pessimismo epicuriano que considera o tudo como pó, o tudo como musgo do nada, passageiras a virtude, o vício, as emoções, sustinha-o à beira das resoluções salvadoras. O pensamento nele era profundo, mas rápido. Levantava a poeira violenta dum tropel de cavalos em estrada de verão e desaparecia. A própria dita de se sentir sentindo o fazia volver de rumo das ideias torvas.
Num minuto revolveu até às fezes a miséria da sua condição. Viu-se o parasita do pobre velho, o ladrão de Norberto, a largata doirada da casa pobre. Um minuto deste teor e tanto bastou para tornar a si, ao seu pessimismo confortável, preocupado apenas com a perspectiva do escândalo e a exautoração pública, em que fatalmente perderia a amiga.
Nesse dia, tendo percorrido a escala dos expedientes, gizou um plano arriscado e difícil. Se o pai não tinha dinheiro na gaveta é porque o trazia nos bolsos. Como chegar-lhe, se não largava a carteira e dormia com ela debaixo da almofada, escarmentado para as gatunices? Lá cismou e, depois de muito cismar, estabeleceu o seu plano.
Antes que dessem graças a Deus, depois de cear, esgueirou-se da cozinha para o quarto do padre, e sorrateiramente meteu-se debaixo da cama. Aí esperou uma boa meia hora, estendido no sobrado, afagando a esperança de resolver o grave problema. O padre veio por fim, resmungando, praguejando contra a égua, que não comia o feno e estava fidalga, e contra a mariolagem do filho, e começou a despir-se. Do seu esconderijo, Isaac apenas lhe via as pernas mirradas e secas como cabos de faca. Ao cabo dum quarto de hora, o padre estava na cama, fumando. A mãe veio dar-lhe as boas-noites e perguntar:
  -- Tem roupa bastante?
  -- Tenho. Dorme com Nossa Senhora.
Uma longa hora decorreu e apenas se ouvia a égua a mascar no estábulo. A respiração do velho, primeiro imperceptível, tornou-se sibilante. Dormia. Isaac arrastou-se então, como réptil, debaixo do leito, reprimindo o fôlego ao mais leve estalido das velhas tábuas. E, de joelhos, subtil, insinuou o braço por debaixo do travesseiro. A sua mão fina e leve, destas mãos afusadas de fim de raça, sondou, passeou, divagou enquanto o coração lhe batia um galope louco de cavalo. A carteira foi por fim arpoada. Folheou-lhe as bolsas, enxergando como se tivesse olhos de nictalope. A velha carteira guardava quatro notas de mil réis, não mais. Descoroçoado, assaltado novamente por uma matilha confusa de sentimentos, quedou-se indeciso; resoluto, enfim, tirou as quatro notas e meteu-as no peito. Docemente, com mais decisão mas não com menos prudência, colocou a carteira saqueada no seu lugar. O padre pigarreou e a alta e antiga cama de cerejeira rangeu estridentemente. Isaac suspendeu-se um segundo e, de rastos, como ladrão consumado, atravessou o aposento escuro, a sala, o seu quarto, abriu a janela e saltou.» ...
                                                         (continua)

Nictalope — pessoa que vê mal de dia.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

exautoração
n substantivo feminino
ato ou efeito de exautorar