(...) «A Maria Carradas deu uns passos resolutos para a escaleira. Isaac deitou-lhe a fateixa e sacou-a de repelão para trás. Intimidada, tornou a mulher:
  -- Pois olhe: torne-me o cordão. Porque me não torna o cordão?
  -- Agora é impossível. Eu pago-lhe depois de amanhã, repito. Era feio tirá-lo à rapariga; que não diriam para aí?
  -- Mais feio é roubar e não pagar a quem se deve!
Isaac rangeu os dentes, de cólera, penetrado do sentimento da sua fraqueza ao ver-se espremido nas mãos grosseiras daquela mulher:
  -- Juro-lhe pela minha boa sorte...
  -- Mas oh! senhor, porque me não há-de tornar o cordão, se eu restituo-lhe os sete mil réis que cá tenho? Onde não há, el-rei o perde!
Decorreu uma pausa e Isaac supôs que a mulher abrandava. Calculadamente instou:
  -- Tenha paciência, amanhã ou depois lá lhe levo o dinheiro. Verá!
  -- Quantas vezes mo repetiu!
  -- Agora é certo.
A mulher olhava o chão, reflectindo; ao cabo dum longo silêncio, volveu, porém:
  -- Mas porque não larga essa mulher? Largue-a. Ora eu a prender-me com tretas. Não, não quero cá saber... Vou ter com o senhor padre...
Isaac voltara a limpar a caçadeira e não pôde impedir que, a correr, a mulher subisse a escada. Lá em cima, à porta verde, entreaberta, gritou:
  -- Senhor Reitor! Senhor Reitor!...
Dentro de casa soaram passos e D. Doroteia respondeu:
  -- Quem chama? Ah! é a senhora Maria Carradas. O senhor Reitor não está, foi dar um anjinho à terra. Se é recado que eu lhe possa dar...
A Maria Carradas parou indecisa, depois, encarando Isaac interdito ao fundo do pátio, proferiu:
  -- Então eu volto quando ele estiver.
D. Doroteia, que espreitara por uma grelha, fechou a porta.
  -- Espero até depois de amanhã pela manhãzinha -- disse em baixo, a sós com Isaac. -- Dentro deste prazo, ou me dá o dinheiro, ou entro em posse do cordão, ou faço grande escabeche. Depois não se queixe!
Anuviou-se o espírito de Isaac e, num rápido exame de consciência, reconheceu quanto era deprimente e censurável a sua situação: dos dois destinos ou dos dois bandos em que se divide o género humano, ele era uma espécie de soldado raso entre os inúteis e desenvergonhados. Norberto, ao contrário, formava no tropel dos oprimidos, de Caim. Bem dava conta quanto a sua vida se tornava repulsiva e merecedora de estigma. Mas estava muito enfronhado no vício para que os rebates de consciência surtissem algum efeito. Nessa noite, todavia, na friorenta e voluptuosa Casa da Roda, Isaac dormiu mal. Manhã cedo, ainda o campanário não havia tangido para a missinha, saltou da cama:
  -- Aonde vais tão cedo? -- perguntou Maria.
  -- Vou a casa, porque o filho do Capitão há-de lá aparecer para irmos pescar. Ao meio-dia estou de volta.
Lavou-se numa prateira que estava por terra e, como não visse toalha, perguntou:
  -- Maria, onde me limpo?
  -- Limpa-te à fralda, que a vesti ontem.
Enxugou-se a regougar, mal-humorado, e foi beijá-la em despedida:
  -- Adeus.
A Amada, a miar ternuras, passou-lhe os braços em volta do pescoço.
  -- Deixa-me!
  -- Quem te pega?!
Isaac arremessou-a contra a parede, num gesto de saciedade, e abalou.» ...
                              (continua)

Escaleira — escada, degrau.

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escabeche

n substantivo masculino 
3 Uso: informal.
confusão, tumulto, algazarra.

"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"