(...) «Isaac reconheceu a decisão inabalável do pai. Ele, tão fraco e tão bom, não se rendia à evidência da sua angústia.
Lentamente a cólera subia-lhe no peito, fazia-lhe trepidar as artérias como o motor de máquina afadigada. À ideia de que se via em embaraços por coisa tão ínfima e insuperável, o desespero sufocava-o.
  -- O senhor não é pai nem é nada; o senhor é um monstro de crueldade!
  -- Isso, isso, sou um monstro...
  -- É um monstro, é! Vê-me aqui a seus pés amarfanhado como um farrapo, e não tem comiseração.
  -- Já lhe disse que não tenho dinheiro...
  -- Mande pedi-lo... -- gritou Isaac de arranco.
Humildemente, dir-se-ia que tomado de medo, o padre retorquiu:
  -- Pedi-lo... se você me arranjasse cinquenta mil réis para remir Norberto...
  -- Roube-o do cofre das almas... Não é certamente a primeira vez.
  -- Caluniador! Se Deus lhe não desse mais que o que eu furto às almas, estalava com fome!
  -- Ata ou desata? -- tornou ele com exaspero.
  -- Já lhe disse, não tenho dinheiro; há muito que não tenho dinheiro...
  -- Quer então o meu suicídio?
  -- Nem quero nem deixo de querer. O senhor já tem idade para ter juízo.
  -- E não há-de ter pena? -- proferiu em voz escarninha. -- Não?
  -- Não venha ele outro mal a minha casa.
A mesma voz chocarreira, alucinada, tornou:
  -- Então há muito que não vê dinheiro?
  -- Assim a benção de Deus me cubra.
  -- Ah! ah! ainda por cima é perjuro... Isto é o que se chama um sacerdote exemplar!
  -- ? 
  -- Então esses quatro mil réis que traz na algibeira?
O velho levou a mão ao bolso e, sacando da carteira, num abrir e fechar de olhos reconheceu o roubo. De salto e com ímpeto desatinado atirou-se ao pescoço do filho:
  -- Ah! ladrão! Ah! ladrão!
Isaac não pôde furtar-se e rolaram no soalho abraçados. A luta foi cega, feroz e rápida. Quando Isaac se safou debaixo do velho, caía ele para o lado, inerte. Os olhos saíam-lhe das órbitas, e da língua pendia-lhe um fio de espuma. Os dentes negros arruaçavam.
O moço lançou em torno um olhar desvairado e, possesso, sacudiu o velho com frenesi e rouquidos de espasmo:
  -- Pai!! Meu pai!!!
Um instante de imensa dor e assombro e, em carreira louca, desceu a escada. Cingia-se à terra uma abóbada de breu. O alpendre, logo abaixo, irradiava como um inferno. Não era este o sumo castigo dos danados? E, alucinado de todo, projectou-se de um pulo na fogueira, mergulhou a meio dos carvões incandescentes. Contra ele, caíram de borco os potes de dois almudes e quebraram-se em astilhas as panelas cheias de água a ferver. E com a carne assada, os cabelos e fato convertidos num archote, correu, noite fora, para os montes, lançando um uivo que atemorizou cinco aldeias.»
                                                            *

Astilha — estilhaço.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693

escarninha

n adjetivo 

1 que contém escárnio; escarnecedor

Ex.: riso e.

n substantivo masculino 

2 ação ou atitude de escarnecer de alguém ou de algo; troça, zombaria

Ex.: não cessavam seus e. sobre nossa ridícula situação

perjuro

n adjetivo e substantivo masculino
que ou aquele que perjura, que falta a seu juramento


"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"