Nos países africanos lusófonos, a poesia foi produto direto da relação entre a palavra e o chão histórico de onde ela brotava.

O caso de Agostinho Neto é exemplar: foi o líder central na luta pela independência de Angola, mantendo, como cidadão e poeta, uma postura firmemente engajada, chegando, em 1975, nada menos que ao posto de primeiro presidente da história de seu país.

Retirei o texto abaixo (Certeza) da coletânea Poemas de Angola (Editora Codecri, 1975). É o primeiro livro de Agostinho Neto publicado no Brasil, com prefácio de Jorge Amado, autor que foi referência fundamental para angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos e toda a literatura luso-africana engajada.

Faço questão de reproduzir algumas palavras do prefácio, cujo tom eufórico traduz bem o sentimento da época:

“Tomei a máquina de escrever para traçar algumas considerações literárias, pequeno prefácio à edição brasileira de uma coletânea de poemas de Agostinho Neto e acabei por não falar de poesia e, sim, de independência, luta, vitória e ameaças. Mas os poemas aí estão, belos profundos, africanos, poemas de guerra escritos por um homem que ama a paz. Ajudaram o povo na batalha da guerrilha, novamente serão canto de luta e de vitória na nova batalha já começada. Também a publicação desses poemas no Brasil é uma forma de contribuir para Angola independente, democrática e socialista.

Inexoravelmente 

como uma onda que ninguém trava

vencemos.

O Povo tomou a direção da barca.

Assim escreveu o poeta Agostinho Neto, assim há de ser sob o comando de Agostinho Neto, Presidente da República Popular Angolana, grande homem de nosso tempo.

                                                                      Jorge Amado

                                                      Salvador, novembro de 1975″

Certeza

Não me peças sorrisos

que ainda transpiro

os ais

dos feridos nas batalhas.

Não me exijas glórias

que sou eu o soldado desconhecido

da Humanidade.

As honras

cabem aos generais.

A minha glória

é tudo o que padeço e que sofri

os meus sorrisos

tudo o que chorei.

Nem sorrisos, nem glória.

Apenas um rosto duro

de quem constrói a estrada

por que há de caminhar

pedra após pedra

em terreno difícil.

Um rosto triste

por tanto esforço perdido

– o esforço dos tenazes

que à tarde se cansam.

Uma cabeça sem louros

porque não me encontrei

no catálogo

das glórias humanas.

Não me descobri na vida

e selvas desbravadas

escondem os caminhos

por que hei de passar.

Mas hei-de encontrá-los

e segui-los

seja qual for o preço.

Então

num novo catálogo

mostrar-te-ei

o meu rosto

cercado de ramos de palmeira

e terei para ti

os sorrisos que me pedes.