Mais um pitaco lusófono.
Corsino Fortes, nascido em 1933, é um poeta e político cabo-verdiano.
Reproduzo aqui a primeira parte da série Do nó de não ser ao ónus de crescer, que integra “Pão & fonema” (1974), e um link para uma entrevista com Corsino Fortes, realizada em 2010, pela Radiotelevisão Caboverdiana, em homenagem aos 77 anos do poeta.
Uma das mais brilhantes expressões literárias luso-africanas, a poesia de Fortes pode ser descrita como uma grande comunhão entre criação artística e utopia revolucionária.
Fortes fez parte da geração de autores africanos que lutaram pelo fim da colonização portuguesa, geração que viu a produção poética como inseparável da reconstrução política e simbólica dos países lusófonos da África, entre os quais figura também Agostinho Neto, importante poeta e político angolano.
Aventurar-se pela literatura em português de outros sistemas literários é uma experiência que envolve identificação e estranhamento ao mesmo tempo: como dizia meu professor de Literatura Portuguesa, o poeta Horácio Costa, é uma experiência que gera em nós a rica sensação de “ver o outro no mesmo”.
Abaixo, o poema e o link da entrevista:
Do nó de ser ao ónus de crescer
ILHA
Do nó de ser ao ónus de crescer
Do dia ao diálogo
Da promoção à substância
Romperam-se
As artérias
Em teu patrimônio
Agora povo agora pulso
agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
noite
noite alta
E o batuque não pára
Em nossa ancas
AGORA POVO AGORA
Que as colinas nascem
na omoplata dos homens
Com um cântico na aorta
Árvore & tambor tambor & sangue
Punho
pulso de terra erguida
Agora
No crânio da Boa Vista
Naufragam mastros e caravelas
E
O mar é rosto que advoga
Entre os tambores e as ilhas em matrimónio
Agora povo agora pulso
agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
noite
noite alta
E o batuque não pára
nas nossas ancas de donzela
AGORA PULSO AGORA
Que todo o pão é exequível
Depois da árvore antes do tambor
Depois da fonte depois do fonema
Antes da gengiva
dente e embrião
Que morde
Na mó de pedra[1]
lasca e lisa
O tegumento[2] na sua casca
Agora
Que a ilha cresce na viola do exílio
E
No violão do trovador
Um coração de napalm[3]
Agora povo agora pulso
agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
noite
noite alta
E o batuque não pára
Em nossas ancas
AGORA PÃO AGORA
Que o pilão viaja com pés de Portinari
Ultrapassando o abcesso
Das ribeiras em viagem
Com hélices de pedra
Ao redor da pedra
E teias de aranha no poente da boca
Agora
Que navios descem
Cadamosto
As terras de pozolana[4]
Carregados de cio E selo branco
E ressonam
Osso osso de caprino sono
E
O milho é datio pro solvendi
Com o timbre de moeda na retina
A usura dos mercados debaixo da língua
Agora povo agora pulso
agora pão agora poema
Ilha
Ilhéu ilhota
noite
noite alta
E o batuque não pára
nas nossas ancas de donzela
AGORA POEMA AGORA
Que do marulho
às pedras de sílaba longa
Os joelhos rompem
ilhas da tua boca
O violão da unha
a viola e o vento
Viola do tempo ao tempo grávida
De sub
ou
de substância
E todo o fósforo Que soma
A árvore do teu lábio
Ao tambor de tal tâmara
E
Do som E da saliva
Volva o ovo o colmo
Que te apelidam
Do fonema ao fruto
Dedo a dedo polegar e seiva
Na tosse tosse da carne óssea
Tossindo verde
De gema-fogo no poço dos joelhos…
Agora povo agora pulso
agora pão
agora poema agora
[1] Mó: espécie de tanque onde se espremem e se reduzem a líquido certos frutos, esp. as uvas:
[2] Tegumento: o que cobre o corpo do homem e dos animais (pele, pêlos, penas, escamas).
[3] Napalm: gasolina gelatinizada e espessada por sais do ácido naftênico e palmítico, empregada em bombas incendiárias e lança-chamas.

