Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas V

[…] Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. Mas o senhor vai avante. Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo,, seja se for jagunço, mas é a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra agente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe!

[…] Pois tinha sido que eu acabava de sarar duma doença, e minha mãe feito promessa para eu cumprir quando ficasse bom: eu carecia de tirar esmola, até perfazer um tanto – metade para se pagar uma missa, em alguma igreja, metade para se pôr dentro duma cabaça bem tapada e breada, que se jogava no São Francisco, a fim de ir, Bahia abaixo, até esbarrar no Santuário do Santo Senhor Bom Jesus da Lapa, que na beira do rio tudo pode. Ora, lugar de tirar esmola era no porto. Mãe me deu uma sacola. Eu ia, todos os dias. E esperava por lá, naquele parado, raro que alguém vinha. Mas eu gostava, queria novidade quieta para meus olhos.

[…] Aí pois, de repente , vi um menino, encostado numa árvore, pitando cigarro. Menino mocinho, pouco menos do que eu, ou devia de regular minha idade. Ali estava, com um chapéu de couro, de sujigola baixada, e se ria para mim. Não se mexeu. Antes fui eu que vim para perto dele. Então ele foi me dizendo, com voz muito natural, que aquele comprador era o tio dele, e que moravam num lugar chamado Os Porcos, meio mundo diverso, onde não tinha nascido. Aquilo ia dizendo, e era  um menino bonito, claro, com a testa alta e os olhos grandes, verdes. Muito tempo mais tarde foi que eu soube que esse lugarim Os Porcos existe de se ver, menos longe daqui, nos gerais de Lassance.

[…] Tem de tudo nesse mundo, pessoas engraçadas: o remadorzinho estava dormindo espichado dentro da canoa, com os seus mosquitos por cima e a camisa empapada de suor de sol. Se alegrou com o resto da rapadura  e do queijo, nos trouxe remando, no meio do rio até mais cantava.Dessa volta não lhe dou desenho – tudo igual , igual. Menos que, por vez me pareceu depressa de mais.. – “Você é valente sempre?” – em hora eu perguntei. O menino estava molhando as mãos na água vermelha, esteve tempo pensando. Dando fim, sem me encarar, declarou assim: – “Sou diferente de todo mundo. Meu pai me disse que eu careço de ser diferente, muito diferente…” E eu não tinha medo mais. Eu? O sério pontual é isso, o senhor escute, me escute mais do que eu estou dizendo; e escute desarmado. O sério é isto da estória toda – por isso foi que eu lhe contei – : eu não sentia nada. Só uma transformação, pesável. Muita coisa importante falta nome.

Minha mãe estava lá no porto, por mim. Tive de ir com ela, nem pude me despedir direito do Menino. De longe, virei, ele acenou com a mão, eu respondi. Nem sabia o nome dele. Mas não carecia. Dele nunca me esqueci, depois, tantos anos, todos.

Agora, que o senhor ouviu, perguntas faço. Por que foi que eu precisei encontrar aquele Menino? Toleima, eu sei. Dou, de. O senhor não me responda. Mais, que coragem inteirada em peça era aquela, a dele? De Deus, do demo? Por duas, por uma, isto que eu vivo pergunta a saber, nem o compadre meu Quelemem não me ensina. E o que era que o pai dele tencionava? Na ocasião, idade minha sendo aquela, não dei de mim esse indagado.

João Guimarães Rosa