Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas I
Guimarães Rosa
O autor: João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisbrugo, Minas Gerais.Formado em Medicina, trabalha em várias cidades do interior mineiro, sempre demonstrando profundo interesse pela natureza e pelo modo de viver e falar do sertanejo.
A linguagem particular de Guimarães Rosa não está no rebuscamento das palavras ou no uso de arcadismos, mas sim nos neologismos, na recriação e na invenção de palavras, sempre tendo como ponto de partida a fala dos sertanejos, suas expressões, suas particularidades; com isso, as palavras recriadas ganham força e significado novo.
A obra: Grande sertão: veredas é um romance genial e, acima de tudo, uma história surpreendente de aventura, amor, mistério, traição, conflito, amizade, dor, paixão e superação. A Folha de São Paulo, a revista Época e várias associações internacionais elegeram o livro como um dos 1000 maiores da literatura universal do século XX.
[…] O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro., eles dizem, fim de rumo, demais do Urucúia. Toleima. Para os de Corinto e Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões e fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.
[…] Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração. Não é que eu seja analfabeto. Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória. Tive mestre, Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra de três. Até geografia e estudo pátrio. Em folhas grandes de papel, com capricho tracei bonitos mapas. Ah, não é por falar: mas, desde o começo, me achavam sofismado e ladino. E que eu merecia de ir para cursar latim, em Aula Régia – que também diziam. Tempo saudoso! Inda hoje, apreceio um bom livro, despaçado.
João Guimarães Rosa