Luciene Azevedo

Créditos da imagem: Rinko Kawauchi, 2021. 

Recentemente, a escritora francesa Muriel Barbery afirmou que vivemos uma crise da ficção. Sempre que ouço diagnósticos alarmistas sobre a literatura contemporânea, tento entender o que dispara a recuperação da ideia de crise, que é sempre evocada a partir de um tom desolador. 

No caso de Barbery, a conclusão é escorada em uma velha oposição. A ficção comercial, vai bem, obrigada. É a ficção literária, que a autora define como romances complexos na forma e/ou conteúdo, que experimenta uma queda vertiginosa no número de leitores. Segundo ela, nossa época vive a era da mercantilização da cultura que é responsável por matar a diversidade e eleger como padrões de recepção a norma e a uniformização dos gostos: “tudo o que desconcerta, é rejeitado”, afirma Barbery. 

De minha parte, sou levada a pensar que esse diagnóstico está aí há, pelo menos, cinquenta anos, propalado por Adorno, mas também por pensadores como Byung-Chul Han, mais recentemente. Essa oposição me parece uma saída fácil para alardear a “crise”, qualquer crise.  

Não me identificaria particularmente como uma otimista e longe de mim querer bancar a Polianna,  mas a assertividade de Barbery me fez lembrar de uma leitura recente. Um leitura “literária”, um livro premiado (seria “vendável”?): A recôndita memória dos homens de Mohamed Mbougar Sarr.  O livro mantém uma conversa intrincada com um outro autor, ausente, procurado com obsessão ao longo de toda a narrativa, que tem um correlato real.  Há também uma conversa subliminar, irônica, com Roberto Bolaño, seus contos e, em especial, com seus romances, Detetives Selvagens e 2666, que sustenta a reflexão de Sarr sobre o que é ser um escritor, sobre como funciona “o coração de toda pessoa assombrada pela literatura: escrever, não escrever”, como lemos ao final da obra. 

É difícil dizer o que o livro conta em poucas linhas. O próprio Sarr brinca com isso ao colocar na boca de um de seus personagens a recusa indignada a resumir um livro. O livro é sobre tudo aquilo para o qual Sarr conseguiu encontrar uma forma de dizer, escrevendo-o. O sumário é enigmático, as vozes narrativas são múltiplas e variam sem muita indicação ao leitor, há reproduções de notícias, cartas e resenhas. E, no entanto, não há nada de hermético na maneira como o romance se oferece ao leitor, que embarca no convite à reflexão sobre os meandros do campo literário, mas também sobre o colonialismo: vida, política, literatura. 

Depois de terminar o romance e pensar na proposição de Barbery, me pergunto: o que é a “crise” – contemporânea?- da ficção? 

E me lembro da ironia fina de outro autor. Dessa vez um latino-americano, César Aira, que afirma: “A literatura sempre foi uma atividade minoritária, por mais que façam escritores ou editores. É difícil, na realidade, ver o que os escritores ganhariam caso sua atividade deixasse de ser minoritária; essa fantasia sim contém motivos de alarme, se pensarmos às custas do que poderia dar-se a ampliação social da literatura.” A literatura é (sempre foi?) uma atividade minoritária que insiste no “peculiar questionamento da significação”, conclui Aira. 

E talvez seja nisso que, afinal de contas, valha a pena apostar, desejando que nosso contemporâneo acolha essa estranheza, ou como diz Sarr: “a indecente literatura, como resposta, como problema, como fé, como vergonha, como orgulho, como vida”.