Começamos o dia com o país das pampas, Argentina, com um poeta desconhecido dos portugueses.

Infecundidade

Às vezes, o poema revela-se

Nega o seu destino humano

E morre antecipadamente

Nas contracções dos vocáculos.

O poeta

Com o seu destino incerto de sílabas em sangue

Procura vencer a sua resistência.

Não concede que as palavras

Ignorem o que sente.

Produz-se o divórcio

Entre o homem e o poema.

Uma muralha se levanta

Entre o desejo de dizer

E o acto da concreção.

Por isso, estes versos que hoje

Nascem sem pele e sem olhar

Têm a tristeza

Dos dias em crise.

Desabitado, afundo-me no meu naufrágio

Desde a vergonha e a decepção,

Sem mais companhia

Que o lento sacrifício

Dos meus voos abortados.

Sozinho, neste infecundidade de lágrimas,

Que me dilui pouco a pouco

E me desceluliza,

Vejo morrer o tempo do meu tempo,

Nestes versos sem pele nem olhar,

Enquanto a vida segue

O seu simulacro de triunfo.

Victor Hugo Tissera

tradução para português de Tiago Nené

Victor Hugo Tiseera é um poeta argentino. Na Argentina vive na cidade de Bahía Blanca. Para saber mais sobre o autor pode ler esta entrevista.