Quando foi a última vez que leram um livro que superou todas as vossas expectativas?
Foi isso que me aconteceu com este «Romance de Cordélia». Já tinha lido «A trança de Inês» e «Os três casamentos de Camila S.» da mesma autora, mas, para mim, nenhum chega aos calcanhares deste.
Logo no início, Cordélia diz-nos que está a cumprir 16 anos de uma pena de 20 anos. Claro que queremos saber porquê, o que é que a levou a chegar ali. Cordélia vai contando a sua história de vida, desde a sua infância burguesa, à avó algarvia onde adorava passar tempo a ajudar com as galinhas. Até, claro, chegarmos ao momento em que entendemos, finalmente, a razão para a pena de prisão.
O livro resultou de conversas com as reclusas do Estabelecimento Prisional de Tires e, ao longo da história, Cordélia vai partilhando histórias das outras reclusas que vai conhecendo.
(…) já sei que aqui na cadeia são todas inocentes, mas eu sou culpada. Eu e a dona Zulmira. Não precisamos de dar homem por nós, amante, vizinho ou filho que nos ajudasse, matámos os nossos maridos porque foi preciso, voltaríamos a matá-los se preciso fosse, é um crime, pagamos de boa vontade, sim senhora, mas não estejam à espera que a gente se arrependa. (…) Nós somos mulheres, não somos animais (…)
Além disso, a personagem principal vai ocupando o seu tempo na prisão a ler romances de cordel que vai partilhando com o leitor.
Um livro impactante, que nos faz sentir empatia por Cordélia e por tantas mulheres presas por situações injustas. E que vem provar que Rosa Lobato de Faria foi uma escritora muito subvalorizada.
