Você ficará impressionado ao se dar conta de que, dez anos depois, será um item esdrúxulo – ou uma situação bizarra – a sua melhor lembrança da viagem.
Maria Paula Curto *
A gente passa o ano inteiro esperando por esse momento: as nossas férias. Sempre desejadas, algumas vezes adiadas, totalmente merecidas, esse é o grande momento do ano. Não precisar acordar cedo, nem se preparar para as 45 reuniões do dia, muito menos olhar os 328 e-mails não lidos na caixa de entrada. Certo? Talvez. Talvez uma olhadinha no grupo de celular do trabalho, para ver se o chefe não tem um pedido de última hora. Só uma olhadinha… Quem nunca? Após a invenção do celular e principalmente do smartphone, no fundo, a gente não tem sossego. Tem? Diga para mim olhando no fundo dos meus olhos, ou melhor, no meio dessa página de texto, se você realmente passa as suas férias sem ver qualquer mensagem do trabalho. Se sim, preciso te conhecer. E pedir conselhos.
Tudo pode começar com a busca pela viagem a ser realizada. Para onde vamos? Praia ou campo? Verão pede sol e nada como um belo mergulho no mar para tirar toda a zica do ano que passou (e no caso de 2021, só virando um Jacques Cousteau tropical para limpar tudo…), mas praia facilita aglomeração e não dá para dar um tchibum de máscara, né? Muito arriscado. Campo com trilhas e uma bela cachoeira pode ser uma boa alternativa, já que cachoeira também remove as cargas ruins da gente e renova energia. E certamente é mais seguro, por ser mais isolado. Isolado? Não!!! Eu quero ver gente! Ai, que dilema…

Brasil ou exterior? Essa, atualmente, está fácil de resolver. Basta olhar o câmbio do dia: só perde para o número crescente e infectados pela ômicron. Que fase, não? Carro, ônibus ou avião? Essa é uma escolha difícil. A passagem de avião virou um verdadeiro filme de cowboy: leva quem tiver o gatilho mais rápido do Oeste nas promoções relâmpago dos aplicativos de viagem. E, claro, quem consegue se programar com vinte anos de antecedência para poder comprar uma passagem a um custo razoável. Eu disse razoável. E o pior é que, agora, a gente compra apenas a passagem, depois tem que comprar o assento.
O assento??!! Fico me perguntando como eu poderei voar de SP a Fortaleza sem assento. Vou em pé e aperto o botão para saltar na próxima estação quando o piloto avisar que estamos em procedimento de descida?? Que sentido faz isso? Depois, ainda temos as malas. Se você não for uma pessoa compacta e minimalista como eu, ainda terá que pagar para despachar a bagagem. Nesse caso, viajar para a praia com temperaturas acima dos 30ºC será sempre mais vantajoso do que para o campo, no inverno. Afinal, alguns biquinis, cangas e protetor solar pesam muito menos que bota de caminhada, casaco ou blusa de lã. No caso do carro, vai pesar a gasolina (outro item que disparou de preço nos últimos tempos), pedágios e a disposição de enfrentar estrada e os tão temíveis e reais engarrafamentos. Não adianta falar que vai sair supercedo, na madrugada ou no contrafluxo: em SP, certamente existirão alguns milhares de pessoas que tiveram a mesma brilhante ideia. Vamos ao ônibus então: barato, mas nem tanto. E muito mais demorado. Para alguém com problemas circulatórios, a chance de terminar a viagem com os pés parecendo dois pacotes de pão de forma é alta…
Uma vez decidido o destino e o meio de locomoção, é a vez de definir se vamos de hotel, pousada ou casa de temporada (por aplicativo ou não). Somos poucos e queremos conforto? Vamos de hotel. Somos muitos e queremos economizar com refeições? Vamos de aluguel de casa. Não somos tantos assim e também não temos aptidões na cozinha (passar dias com a barriga no fogão, lavando louça e indo a supermercado não é dos meus programas favoritos para as férias, vamos combinar)? Que tal uma pousada? Ok, pousada será. Mas, que critérios utilizar para escolher uma das 527 pousadas que apareceram no site de pesquisa? Somente preço? Cuidado, pois ficar a 4 km de distância de restaurantes, lojas e atrações e ter que usar carro (alugado, no caso) ou taxi para tudo pode fazer o barato sair caro. A não ser que você esteja em lua de mel e deseje passar o dia inteiro no quarto treinando as inúmeras posições do Kama Sutra ou um canguru perneta. É uma possibilidade bem interessante, eu diria, mas que já não pertence ao meu cardápio cotidiano faz alguns séculos. Nem existe mais na minha memória, devo confessar. Talvez uma leve reminiscência…bons tempos…

Agora, é fazer as malas. Nesse caso, a orientação é: menos é mais. Consulte o clima no local de destino e escolha roupas adequadas e confortáveis. Nada de salto nem mesmo sapatilhas em Jericoacoara, por exemplo. Apenas chinelo de dedo. A opção envolve trilha ou caminhada? Leve um par de tênis já velho e bem conhecido. Estrear aquele modelo que você comprou no Natal e nunca usou é muito arriscado. Você não vai querer começar os passeios com bolhas, vai? Ninguém merece. E nem tente enfiar aquela blusinha de última hora na mala. Você não vai usar. Nós sabemos disso. Lembre-se que repetir roupa é um ato ambientalmente sustentável. A gente consegue passar uma semana com uma mala de 8 kg. A nossa coluna agradece. O bolso também.
E nunca se esqueça de deixar um espacinho para aquele artesanato ou camiseta que você vai querer trazer de “recuerdo”. Você pode até se arrepender depois (por que mesmo eu comprei esse sombreiro todo colorido?), mas, no mínimo, terá uma história divertida para contar. Você ficará impressionado ao se dar conta de que, dez anos depois, será esse item esdrúxulo – ou uma situação bizarra – a sua melhor lembrança da viagem. E pensar que você investiu tanto na suíte daquele hotel de luxo…
Na bolsa de mão, leve os itens mais valiosos e que não podem correr o risco de extravio: documentos, dinheiro, celular, carregador e o kit álcool gel e máscara. Se você estiver numa idade já mais avançada – o meu caso – separe também alguns remédios. E torça para que você não precise usá-los. Se gosta de ler – também é o meu caso – inclua um Kindle ou alguns poucos livros fininhos. Eles são sempre úteis e deliciosos em momentos de espera. Ou de travessia. São várias as formas de viajar…
Por último, mas não menos importante: leve com você muita disposição e abertura. Para o mundo, para o outro, para aquilo que é diferente. Permita-se experimentar coisas novas. Você não saiu de Sampa para comer pizza ou visitar shopping, certo? Não gostou da moqueca? Tudo bem. Você tentou. Quem sabe amanhã aquele peixe cozido na folha de bananeira não te surpreende. Abrir-se para outras possibilidades não pesa. Só vai deixar nossa bagagem de vida mais rica.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.