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Jul24
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto

... «Celebra-se Sá de Miranda como autor de revolução profunda nas letras portuguesas. O soneto, a elegia, o epos agrupados segundo estas e aquelas estrofes, sob o ponto de vista de inspiração e do primado poético que implicavam de superior? O instrumento podia variar, mas a música ficava a mesma. Correspondentemente, portugueses e espanhóis dedilhavam em liras diferentes. Em poesia a ideia foi sempre o acessório; importa menos o assunto do que o matiz inspirado com que é colorido o painel.
Assim os dois sonetos de Camões: O culto divinal se celebrava e Todas as almas tristes se mostravam nasceram do tema petrarquiano da Semana Santa com a contenção espiritual que lhe é própria:
Era'l giorno ch'al sol si scoloraro.
Bastou este mote para tornar a temporada das Endoenças a sazão do cio dos petrarquistas de todos os países e de todos os tempos.
Diz Storck, a meu ver com assisado sainete, que semelhante quadra entrou definitivamente para a mitologia poética depois que Petrarca, baralhando as cartas, fez coincidir a Paixão de Cristo com a sua pretensa paixão. Camões singrou nestas águas com a sua elegia da Sexta-Feira Maior.
Francisco Petrarca, na vontade de dar o que há de impositivo, espiritual, e misterioso no amor, criou uma metafísica poética, para que não contribuiu pouco o neoplatonismo com as suas velaturas psicológicas e suas sondagens artesianas da alma. A beleza foi arvorada em Personalidade estética, existente por si ab aeterno, sorte de deusa soberana a que os iluminados vinham queimar os incensos e dirigir seus votos. Tudo neste culto era levitação, rapto de amor, júbilo e choro desfeito, esperança e desesperança, vaivém de contrastes que redundavam às vezes em verdadeiro quebra-cabeças verbal.
Dizia Graciano que «o grave e subtil Camões» costumava rematar os sonetos por un encarecimiento paradoxo que es uno de los mayores excessos del pensar y assi tan primoroso quan difficultoso. Numa palavra, a poesia, quase toda ela de essência amorosa, tornara-se uma criptografia, avessa à interpretação directa, sempre figurada ou sempre simbólica. Os poetas mergulhavam a sonda no pélago confuso das suas sensações e o que vinha à superfície trasladavam-no ao verso. Bem decerto que não em sua inteira pureza original. A arte é tempero como a olla podrida. O mundo dos fenómenos fornecia apenas os princípios básicos, o plano. Profere o Dr. José Maria Rodrigues, libelando de Camões: Porque não hei-de supor que a celebrada Natércia, que tanto tem dado que cuidar aos seus biógrafos, não é mais que um parto da sua imaginação para, por sua conta, filosofar de amor?
De facto, tal sentimento na poesia petrarquiana era mais um jogo de espírito, uma álgebra no espaço subjectivo, do que uma paixão condicionada pelos mil e um factores da vida ambiente. E a imaginação substituía as demais faculdades, sendo o supremo desiderato imitar Petrarca.» ...
(continua)
publicado às 21:50