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Jun24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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(...)

... «Depois das referências acidentais que faz a Coimbra, no atinente a estudos e às musas, não trazer à colação Camões, dado que tivesse sido estudante da Universidade, é o mesmo que falar na Capela Sistina e não nomear Miguel Ângelo. Pelo contrário, o nome do poeta brotaria espontaneamente daquele articulado como a castanha do ouriço maduro. Nem se diga que semelhante lacuna se deva atribuir às manias do padre, carácter alforgeiro ou sistematicamente omisso quanto ao poeta e a tudo o que na vida ordinária lhe diga respeito. Aqui e além deixou escapar uma ou outra notícia, que alguma luz derramam sobre a vida do poeta, como por exemplo, a pretendida identificação de Camões com Leonardo, o soldado enamorado, que são muito menos oportunas e imperiosas do que esta. Haveria mesmo desdouro no seu lapso, admitindo que fosse de caso pensado. Camões, que até certo ponto deve ter presidido à elaboração dos Comentários, como se deduz do convite que fez ao escoliasta, teria sobejas razões para melindrar-se e, naturalmente orgulhoso como todos os do seu tempo, não sofreria o menoscabo. A nosso ver, pois, tudo indica que este silêncio devemos tomá-lo como o mais positivo dos testemunhos.

Manuel Severim de Faria, em 1624, e Faria e Sousa, em 1639, no propósito assente de erguer a figura do poeta, imaginaram-no a estudar artes em Coimbra pelo mesmo processo de enaltecimento com que o graduaram fidalgo de primeira nobreza. Como Bento Camões, na qualidade de prior de Santa Cruz, fosse o primeiro cancelário da Universidade, vá de pô-lo à sua sombra e tutela, inclusive de desencantar um soneto e elegia que lhe seriam dedicados:

      A ti, senhor, a quem as sacras musas

      Nutrem e cibam de poção divina, 

      Não as da fonte Délia Cabalina

      Que são Medeias, Circes e Medusas...

Podiam dirigir-se estes versos a Bento de Camões, que não consta fosse poeta, ainda que aqui se trate dum poeta místico ou divino?

O soneto é, além de muito mau, arrebicado, como não menos o é a elegia, para ser duma criança. Ao tempo, Camões teria treze anos. É incompatível com o espírito adolescente o tom de parénese que se filtra, por exemplo, destes versos:

Pois olha, pecador, que vás nadando 

      Nas procelosas ondas deste mundo, 

      Nos mistérios divinos contemplando...

Através destas estrofes atormentadas e solavancantes, em vez dum mocinho, que é mais razoável supor rendido aos móbeis risonhos da vida, vislumbra-se o asceta, que já encaixou o que basta de gozo, e de olhos encovados espreita para dentro de si e no vago a querer penetrar a escuridão do além.» ...

(continua)

publicado às 19:43