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Jun24
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto

... «Desta árvore, transplantada tão precipitadamente e logo de princípio mortificada de enxertias e híbridos, que saiu? Túrgidas de todo o polme congenital jurídico-escolástico, as belas espécies teratológicas de Martinho de Azpilcueta e Francisco Suarez.
Voltando à nossa proposição: a ajuizar pelas normas pedagógicas e suma didáctica em uso neste e naquele claustro, especialmente em S. Domingos e Santo Antão, é fora de dúvida que Luís de Camões não tinha necessidade de sair de Lisboa para aprender o que se ensinava em Coimbra. Segundo o testemunho de André de Resende, Frei Luís de Sousa, Baltasar Teles, etc., etc. os programas equivaliam-se. Frei Bartolomeu dos Mártires, Diogo do Couto, Damião de Góis, o próprio Pedro Nunes formaram-se nas aulas monacais de Lisboa.
Não nos admiremos pois, admitindo que os pais de Luís de Camões tivessem em mira dar-lhe a educação mais esmerada, achassem melhor segurá-lo em Lisboa, mandando-o às aulas que davam em seus respectivos claustros dominicanos e jesuítas. A este respeito escreve o visconde de Juromenha:
As relações que Simão Vaz de Camões tinha com os padres de S. Domingos, que naquele tempo gozavam de bastante reputação literária; a proximidade da casa com o convento; a docilidade com que o poeta a seu rogo emendou e riscou alguns lugares do poema; o recreio que mostrava e a consolação que sentia com a companhia destes religiosos nos últimos e desgraçados tempos da sua vida, arrastando-se, encostado a umas muletas, para ouvir as lições de teologia que se davam neste convento, me faz acreditar que fossem estes religiosos os primeiros preceptores do nosso Poeta, frequentando ele as suas aulas, que naquele tempo eram concorridas pelas principais pessoas da Corte.
As principais pessoas da Corte não aprendiam letras, mas o certo é que os padres tinham estas cátedras ad libitum. Ao contrário, as escolas de Coimbra tiveram desde logo a frequência escolarizada e com ela a escrita em dia, que ainda hoje se pode compulsar nos cartórios da Universidade. Pretendendo ratificar a versão oficializada de que Luís de Camões frequentara as suas disciplinas já com a nova reforma, o visconde de Juromenha mandou proceder a minuciosas buscas. Encontraram-se nos tombos as matrículas coevas ao tempo em que Luís de Camões poderia ter cursado os estudos, mas nenhuma se reportava ao seu nome.» ...
(continua)
publicado às 18:34