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Jun24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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...«Storck, com o tácito acordo de Carolina Michaëlis, expunge as Obras Camonianas desta Elegia de Sexta-Feira de Endoenças.

Coligida no Cancioneiro de Luís Franco, não traz nome de autor. Há a considerar ainda que o dignatário eclesiástico inominado, a quem a poesia foi consagrada, de sorte é Fr. Bento Camões se se tiver em vista que, podendo a posteriori ser-lhe endereçada a primeira estrofe: A ti, senhor, a quem as sacras musas, não convêm outras da invocação como: divino almo pastor, Délio dourado... almo Timbreu..., etc., etc.

Já tivemos também ocasião de dizer que a estirpe dos Camões, por aquela época, era vasta e difusa. Famílias com este patronímico habitavam, ao que parece, Coimbra, Lisboa, Avis, Crato, Alter Pedroso, Alter do Chão, Castelo de Vide, Cabeço de Vide, Sardoal, Estremoz, Alenquer, Chão do Couce, Mação, Amêndoa, Belver, Santarém, Évora, Ribeira do Sor, etc., etc. Para entroncarem todas em Vasco Perez de Camões, quatro vidas acima, haverá que pressupor um patriarcado, émulo de Abraão na prolificidade. Este Fr. Bento foi uma das estrelas alfa da nebulosa, mas que só por mera presunção se trouxe para o zodíaco do poeta. Os dois colégios, colocados sob a égide de Santa Cruz, de que chegou a ser reitor, não se adaptam de resto à condição que se nos afigura liminar em Luís de Camões. A ele, como primogénito fidalgo, não cabia seguir a carreira das letras, mas, sim, a das armas. A estopada das humanidades, com o latinório e a gramática, afugentava os moços de prol, que tinham por mais bonito e agradável consagrar-se à arte da gentil-homeria, como fosse montar a cavalo, jogar as armas, aprender os ardis da caça, dançar e versejar na medida velha por ser ainda prenda de sala. O resto era panorama. Ficava a sabença para os filhos segundos e bastardos, destinados desde o berço à cleresia, aquela em que a fecunda e lauta Igreja lusitana ia recrutar seus príncipes e prelados. Ora a estes estava reservado o Colégio de S. Miguel de Coimbra. Só lá entravam de barão para cima. Tiveram cela neste internato D. António, prior do Crato, D. Teodósio e D. Fulgêncio, rebentos segundos da Casa de Bragança, um que foi arcebispo de Évora e outro Dom Prior de Guimarães, e D. Gonçalo da Silveira, da Casa de Sortelha, que reuniam as condições supracitadas. O Colégio de Todos-os-Santos recebia, segundo a letra dos estatutos, os filhos dos fidalgos pobres e da alta burguesia, destinados à carreira eclesiástica, exclusivamente. Ora, Luís de Camões não correspondia aos requisitos exigidos para a admissão.» ...

(continua)

publicado às 18:35