19

Mai24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

res cap 2 .jpg

(...)
... «As famílias Camões, que aparecem nos anos imediatos ao serviço dos reis, estabelecidas aqui e além, principalmente no Alentejo, como os Camoeiras de Évora, os morgados da Torre de Almadafe, os morgados da Gesteira, os Vaz de Camões, senhores da Quinta do Judeu, nos arredores de Santarém, bem como, segundo é de presumir, os progenitores do poeta, provêm doutros ramos. 
A estirpe de Luís de Camões carece de outras provas genealógicas, que não sejam as estimativas, à parte alegações de todo arbitrárias, ditadas com visível parcialidade. Da migração vasta e anónima que se derramou pelas províncias portuguesas, inclusive as do Sul, derivou naturalmente. Veio na vazão da tribo. Assim ou doutro modo, para o caso não tem importância. Nunca ele se prevaleceu de prosápias de sangue azul.
Uma vez que Vasco Perez de Camões foi obrigado a passar a fronteira, afigurava-se legítimo que os seus o seguissem. Os nobiliaristas encontram no degrau subsequente das gerações três Camões e não acharam melhor que filiá-los no consórcio do alcaide de Alenquer com Maria Tenreiro, filha de Gonçalo Tenreiro que a torto ou de direito se inculcava capitão-mor das armadas de Portugal. Como este devia possuir fortuna própria, os netos teriam beneficiado da legítima, donde não seria de estranhar que o pai fosse compelido a regressar a seus paredeiros galegos sem mais que o coiro e a camisa, e eles quedassem na frescata da ribeira lusitana.
Não se sabe se é nestes ou noutros que entronca Luís de Camões. Como se apagam na estirpe Perez e Tenreiros e brotam Vazes?
O Padre José Agostinho de Macedo, zoilo não destituído de senso crítico, escreve: ...Este testemunho faz-me crer que o soldado chamado Luís de Camões que, como diz Couto, veio morrer em Lisboa de pura pobreza, não é aquele cuja genealogia é tecida por Manuel de Faria e Sousa e começada em Vasco Pires de Camões, no reinado de D. Fernando, em 1370, até Simão Vaz de Camões, casado com Ana de Macedo. Um homem tão ilustre, entroncado com as mais nobres famílias, chegaria a tanta miséria como a com que morreu, e não teria uma casa, nem uma renda, uma fazenda em Alenquer ou em Santarém? Seus pais nada teriam que lhe deixar, sendo filho único? O assento que se achou na Casa da Índia com a conta de 2000 réis que deram para embarcar como soldado plebeu e um dos alistados por aquele insignificante estipêndio, talvez prove a minha lembrança.
Em verdade, pouco se sabe sobre a justa linhagem de Luís de Camões. O próprio, porque fosse superior a embófias ou por outro motivo que ficou secreto, nunca se referiu aos pais, que os genealogistas retingiram do melhor sangue suevo. Basta o trabalho ímprobo a que se têm entregue, no propósito de lhe urdirem a linhagem, para nos capacitarmos do terreno ingrato que pisavam.»
                                                                                                                (continua)

publicado às 18:55