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Mai24
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto
... «A outra parte, essa que os magnificadores de hoje dissimulam como deprimente, e filtrou da obra de homenagem e exaltação em virtude do dom de irrepressibilidade que a verdade possui como os elementos, está provada por sua natureza. Uma poderá ser gratuita; a outra tiveram forçosamente que admiti-la. Parece que para o caso não deva haver duas lógicas.
Viriam pois os depoentes ao pretório prestar declarações quanto aos tópicos zenitais. Por esta ordem:
-- Senhor Padre Manuel Correia, como averiguou que pelas armas Luis de Camões foi na Índia muito conhecido? Afirma que foi ele quem lhe pediu para fazer os Comentários dos Lusíadas... Não sabia que fizera idêntico convite a Diogo do Couto? E, a propósito, esclareceu-o alguma vez nas passagens intrincadas do poema? Essa reserva, tão porfiada, acerca da vida particular do poeta, para mais seu amigo, como incumbe interpretar-se?
-- Senhor Doutor Manuel Severim de Faria, que sentido é lícito atribuir às suas palavras: a pobreza em que viveu tinha escurecido em parte a clareza dos seus antepassados...? Além do sumo que tirou da obra poética de Camões, espremendo poesia a poesia, catando-lhe todo o qualquer pólen, digamos, de ordem pessoal, serviu-se para os seus Discursos Vários doutras fontes de informação? A quem ouviu? Como soube, por exemplo, dos amores do poeta com uma dama do Paço? Ou é que o palpitou apenas nos versos do poeta? Onde apurou que enquanto estivera na Índia fora muito estimado de toda a fidalguia? Foi porque o leu em Correia? Fala com lisura... sim... Mas, repare, uma vez que se mostra inclinado a dar ouvidos àqueles que na Écloga IV de Virgílio vêem vaticinado pela sibila de Cumes o advento de Luís de Camões como cantor dos novos Argonautas, que crédito podemos dar a quanto de maravilhoso o senhor chantre nos alardeia à conta do poeta?
-- E quem nos garante, Faria e Sousa, mirífico comendador da Ordem de Cristo, cortesão exaltado dos reis, que tudo quanto escreveu de caloroso e sublime acerca de Luís de Camões -- mi poeta, exclama a cada passo -- não é mais que idolatria, respeitável enquanto se confina ao foro íntimo, flibusta execranda quando se impinge ao público como dogma declarado?
-- E em matéria de nobreza, ilustre Diogo do Couto, senhores licenciados, podem testemunhar que ele alguma vez pusesse orgulho na prosápia? Os pergaminhos quem lhos viu? Se frequentava o Paço, porque não falam dele os poetas palacianos, sobretudo esse Conde de Vimioso, o primeiro mexeriqueiro do seu século, que deixou a história de todos os potins e dixe-me-dixes da Corte? Teve comércio com fidalgos...? Não era difícil. Os grandes do armorial fechavam os olhos quando se tratava de angariar parceiros para as suas orgias e patuscadas. Mas ainda aqui, não se tratava de elevar a pessoa, de trazer à figura o indicado reboco de auricalco? Tudo vontade de bem fazer, devoção, culto estrénuo, bem se vê, requintado até o fanatismo...!» ...
(continua)
publicado às 21:05