... «O meu último livro, Camões, Camilo, Eça e Alguns mais, escrito nas boas intenções de servir a verdade e a moral literária, foi objecto de acerbas e tendenciosas críticas, destituídas algumas vezes de elegância e da mais elementar equanimidade. As páginas que se seguem acodem em desforço da minha tese, se tese foi o haver-me proposto reconduzir Luís de Camões das falsas púrpuras de que o ajoujaram à sua deprimida humanidade. Alçaram-se contra mim guelfos e gibelinos porque vim desmanchar o paspalhão de entranhas de filaça e punhos de falsa renda de Malines, que do seu estaleiro de figurantes de capa e espada António de Campos Júnior lançou um dia a público, e retomou mais tarde, beatamente, o Dr. José Maria Rodrigues, douto e cândido fantasista.
Sem dúvida alguma, foi aquele folhetinista de fértil imaginação quem endossou ao poeta uma encarnação que até ali não era a mais aceite nem a que compartilhava o consenso dos letrados. Mediante a sugestão duma leitura fácil e envolvedora, criou um tipo e conseguiu que os mestres-escolas e os historiadores do poeta, provavelmente abeberados do romance, quando suas mentalidades se encontravam no período de formação, o aceitassem como tal e não quisessem vê-lo doutro modo. Também li a obra de Campos Júnior, mas já me não lembro nada de nada das peripécias e enredo. Com certeza que devia entrançar os amores do poeta com a Infanta, com Catarina de Ataíde, com a Leonor, de cantarinha na anca, e Camões figurar sucessivamente de garboso estudante em Coimbra, Trinca-fortes em Lisboa, Aquiles no Oriente, etc., etc. Tudo isso se condimentava de panache em barda, fidalguia de quatro costados, duelos, saraus no Paço, em suma, trinta por uma linha de cor e de prosápia, a letra precursora do filme com que acabaram por inebriar-se as almas simples e megalómanas dos Portugueses.» ...
(continua)