19
Abr24
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto
... «O livro aparecido na Primavera de 49: Camões, Camilo, Eça e Alguns mais não deixou de causar certa surpresa, íamos dizer emoção, no público ilustrado. Comparam-no palurdamente à pedra despedida para um vitral -- mau vitral, direi eu, e de varanda de ricaço, cuja fancaria o gentio, em seu gosto angélico, isto é, baldo de critério, estivesse afeito a olhar desde sempre como preciosa rosácea. Sim, que grossa estreloiçada de cacos deitados abaixo! Então Camões não era aquilo que ensinavam na escola?! Um poeta émulo de Homero, espadachim de vielas de má nota nas horas vagas, com entrada no Paço, tu cá, tu lá com os grandes, amante feliz dumas açafatas, enamorado platónico doutras, estro sempre a ponto para glosar um mote, colar encanudado e bofes de renda à Lorde Brooke, numa palavra um gentil-homem pobre, mas invejável, como está admitido por gregos e troianos?!...
Universitariamente, professava-se a opinião de que tudo o que havia a dizer sobre o autor dos Lusíadas estava dito. Juromenha, Costa e Silva, Leoni, Gomes de Amorim, Oliveira Martins, Teófilo, Latino Coelho, José Maria Rodrigues, D. Carolina Michaëlis, Storck, Afrânio Peixoto, Cidade, José Régio, tinham esgotado o assunto. Daí o votar-se ao cantor das glórias lusitanas um culto estático, como às divindades. Afrânio Peixoto foi dos raros que se permitiram mondar com foice afiada e certeira na seara defesa. A conferência que realizou na Academia Brasileira de Letras marca pela sua ousadia consciente, discrime lúcido, desbravamento, o começo de nova era nos estudos camonianos. Com ele reapareceu a faculdade crítica que o fanatismo chauvinista fizera expulsar deste domínio como fautora de sacrilégio e escândalo.» ...
(continua)
publicado às 19:10