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Abr24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

... «Quanto a mim impõe-se a revisão a fundo e com meticulosidade. Neste trabalho eu pouco mais sou que um retocador de altares, ponham lá. Empunho instrumentos modestíssimos de trolha. Meto aqui um prego, além outro; varro as teias de aranha; renovo o doirado; arredo a superfetação. Como é sabido, com certas grandes figuras sucedeu o mesmo que com os astros cuja luz, se a ciência não mente, só chega à Terra depois de eles extintos. Ninguém os viu no seu génesis; ninguém mesmo se interessaria por elas. Daí o concebermos a seu respeito uma ideação mais ou menos conjectural, de extrema mobilidade. Do mesmo modo que não há um vero retrato de Camões, é impossível reconstituir com os dados que nos restam quanto à sua vida uma incontrastável biografia. Tacteamos na escuridão. Homero, Shakespeare, Camões, são como as Alfas do Centauro.
Pareceu-me encontrar, não novas fontes, mas gotas de linfa pura, perdidas, ou melhor, desaproveitadas. Da primeira vez fui às três cartas particulares que nos restam do poeta e li-as com olhos atentos. Não foi empresa fácil. São verdadeiras e intrincadas charadas, naquela forma criptográfica de dizer coisas qui feraient rougir un singe, e porque esse hermetismo era de moda nas letras.
Agora, bati com aturada paciência os lugares consabidos do derroteiro camoniano e esvaziei o alforge cheio dos coca-bichinhos. Mortifiquei-me a procurar Camões, o verdadeiro. A maior dificuldade esteve, de princípio, em remover o entulho debaixo do qual jazia sepultado. Até me arrojar, em seguida, a demolir os túmulos grandiosos, mas de todo bizantinos, das biografias, romanceadas com o propósito cândido de engrandecer o homem, supondo que melhor exalçavam o poeta, foi um drama. Ao fim de tudo, a minha convicção é que o Camões real, esse que viveu, amou, penou, está tão longe do Camões fabuloso como o ovo dum espeto. O Dr. José Maria Rodrigues era um morigeradíssimo e sábio eclesiástico, e o que fez foi adaptar ao épico idolatrado a paráfrase do culto mariano. Não o apresenta doido varrido de todo pela infanta D. Maria, uma beata que entisicou a rezar e a bater no peito? Camões, na sua mocidade ardente e impetuosa, andava metido com outra casta de gente que não a do Paço da Ribeira. Visto e achado seria com a súcia dos Marialvas, em que não podiam deixar de figurar como flores necessárias do ramalhete as cómicas espanholas e as antíopas do Mal-Cozinhado.
E quanto a fidalguia, nos percalços que sofreu e de que são testemunho insofismável os documentos trazidos a lume pelo visconde de Juromenha, jamais se vislumbra a mão enobrecida de algum parente interferindo por ele. Nem em Lisboa nem na Índia. Devia tratar-se de linhagem muito abaixo da meia-tigela a sua ou do ramo plebeizado, para assim ser lançado à margem.» ...
                                                                 (continua)

publicado às 19:29