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Mai24
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto

... «É de todo intolerável qualquer preconceito ou paixão facciosa quanto a averiguar se o poeta era fidalgo ou escudeiro, fidalgo de meia-tigela ou proletário, palaciano ou homem da rua, viveu e morreu tranquilamente, confortado ou não com os sacramentos da Igreja. Neste capítulo, o padre Macedo é suspeito. Ajusta-se o meu sentir com o do visconde de Juromenha que se exprime por estas palavras: «Que Luís de Camões fosse filho de um plebeu ou de um nobre pouco importava para a sua fama...» De qualquer lado do quadrante que se encaminhem, os biógrafos estão de acordo sobre o seu génio multiforme. Também ninguém, salvo o Pe. José Agostinho, dissentiu que os Lusíadas, antes de serem o melhor nobiliário do nosso povo, foram o tombo léxico e filológico da língua. Quer dizer: Luís de Camões, ao tempo que lavrava as suas delicadas ou robustas filigranas, ia fundindo o respectivo ouro.
Concordes sacerdotes e sacristães de Minerva neste capítulo, o restante, embora matéria de dúvida ou de inconformidade, nunca deverá constituir fonte de atrabílis para ninguém. O restante é o transitório, o comum a todos a homens, matéria de gozo e sofrimento, zona franca, aberta, portanto, à investigação e debate. Por outra, o Camões dos Lusíadas entrega ao espéculo, e não se fala de irreverência para o artista sepulto há perto de quatrocentos anos, o domínio em que se movia o Camões do Mal-Cozinhado... Partindo de tal premissa, subentende-se que é de todo infantil erguer um prussiano verboten no assunto das origens. Nobre por avoengos ou simples escudeiro, não deixa de ser o nosso grande Camões. Qualquer preconcebimento nesta área é tudo o que há de mais antiespírito.
Propor-se Aristarco riscar da História Portuguesa os nomes ilustres pela estirpe igualar-se-ia no absurdo a pretender fechar o Panteão Nacional àqueles que fizeram nome e prosápia por si, saídos da massa obscura do povo. Camões, aristocrata dos quatro costados ou fidalgo das dúzias, é sempre o mesmo génio, alto expoente da nacionalidade, acima, muito acima da precária controvérsia da linhagem.
No entanto, não há construção mais lógica que o homem. Os seus hemisférios moral e físico completam-se e determinam-se reciprocamente em seus actos e tendências. Não importa saber para o caso se tudo em nós é colóide, ou se há uma parte que é eterna. Pois que existe um artigo consumptível e caduco, carne, o qual, para efeito do odioso e social eu, vive na estreita intimidade e conivência do espírito, artigo esse de altruísmo, estude-se o que vale em face da sua metade. Uma coisa pelo menos ajuda a explicar a outra.» ...
(continua)
publicado às 19:20