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... «Abrem-se as  Líricas de Camões, e a cada passo, tanto nas éclogas como nas canções e sonetos, depara-se o poeta queixoso da fortuna, avassalado pelos fados adversos, carpindo a sorte, varado de tristeza e de langor, de mal com a vida: Fortuna enfim com amor se conjura contra mim... Não o faz em obediência apenas à palavra de passe petrarquista; mais que floreio poético subjectivo, há ali tortura verdadeira. Sente-se que pôs de parte o artifício quando fala na miséria que injustamente padece, no seu baixo e triste estado, nos seus danos, ou quando chora lágrimas de sangue sobolos rios que vão por Babilónia, amaldiçoando, como Job, o dia em que nasceu.

Foi, portanto, um homem profundamente desditoso. A infelicidade cava-se por nossas mãos, mas também se recebe por herança. Herda-se, como uma geba, na desfortuna paterna e obscuridade de geração; herdava-se sobretudo na época em que Camões veio ao mundo, de predomínio do indivíduo privilegiado pelo sangue. Então o poeta não era destes? Numa coisa os registos da Casa da Índia falam alto e concordes: Luís de Camões era escudeiro. Naquele século, o mundo que se prezava, e particularmente Portugal, repartia-se em fidalgos e vilões. Pois que o poeta não era escravo como Esopo, nem moço de bispo como Afonso Álvares, nem ourives como Gil Vicente, muito menos hortelão ou calafate, que categoria lhe respeitava a meio da legião inumerável dos filhos de algo?

Lisboa era densa tortulheira, gente de espada e de rosário a uma banda, arraia-miúda, descalça, rota e grulha, a outra. Difícil seria dizer qual a mais numerosa. Se excluíssemos os escravos, de que se tornara o empório para a Europa, decerto que a parte aristocrática, juntamente com a tonsurada, lhe levaria a palma no quantitativo. 

O licenciado Manuel Correia inicia o Comentário dizendo: ...foi Luís de Camões português de nação, nascido e criado na cidade de Lisboa, de pais nobres e conhecidos... E nada mais acrescenta neste particular.

É temerário ajuizar da extensão que poderia ter entre nós, àquela altura, a palavra nobre. Correspondia na escala social, estritamente, a fidalgo? Na pena de Correia, debaixo do ponto de vista da ordem de valores, assumia significação diferente daquela que também tem hoje: gente limpa, em contraste com gente ordinária ou vulgar? Na acepcão comum podia ser uma coisa ou outra. Lê-se no antelóquio da Peregrinação: Fernão Mendes Pinto, autor deste livro, natural da vila de Montemor-o-Velho, muito conhecido por nobre e de singular engenho, memória e verdade.

Ora Fernão Mendes Pinto parece não se inculcar como fidalgo, provindo da miséria e estreiteza da pobre casa paterna. Na Inglaterra, é verdade, apenas se tinham por nobres os titulares, duques, marqueses, etc. Mas já em França, com o antigo regime, nem todo o nobre era gentil-homem, embora todo o gentil-homem fosse nobre. E na antiga Roma bastava que se tivesse antepassados célebres ou conhecidos para se ser nobre, posto que se não pertencesse ao patriciato.» ...

(continua)