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...A menos que o facto devesse representar um vácuo genealógico, o que está fora de discussão, pois nos surge aquele Vasco Perez de Camões, vindo da Galiza, homem de dois rostos, sim, mas estadeando armas bizarras de fidalgo.
Por sua vez os documentos, desencantados por Faria e Sousa e Juromenha no palhagal das chancelarias, dão-nos Camões ora como escudeiro, ora como cavaleiro fidalgo. Que distinção há e qual o timbre?
Escudeiro ocupava na craveira por que se regulava o provimento dos cargos oficiais, tanto civis como militares, o penúltimo dos escalões. Dali para baixo, só o homem honrado, que não tinha outro préstimo que não fosse dar o corpo ao manifesto, assim como o soldado raso, esse o mais descido da hierarquia. Segundo parece, escalonavam-se tais dignidades por esta ordem: fidalgo da Casa de El-rei; moço fidalgo; moços da Câmara; do número e do serviço; escudeiro-fidalgo; homem honrado e soldado raso.
Quando se não tinha profissão própria, e ninguém de facto a tinha -- neste país todos somos nobres e é uma grande desonra exercer publicamente uma profissão, lê-se numa das Cartas de Cleynarts -- dado que se não fosse grande do Reino, ou, o que estava já fora da perspectiva, se não cavasse a terra, era-se escudeiro. Não obrigava a nada. Em parte alguma se perguntava a outrem pelos pergaminhos. Tutti marchesi, como na opereta. No prólogo do El-rei Seleuco, Camões chasqueia do mester e implicitamente da honraria: E diz que quem dela (farsa) se não contentar, querendo outros novos acontecimentos, se vá aos soalheiros dos escudeiros da Castanheira ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do boticário, e não lhe faltará que comer...» ...
                                                                                       (continua)