
... «Na indigesta versalhada que tem o título de Sátira a Camões, André Falcão de Resende traça o seguinte painel do pobre diabo, velhaco nas suas horas, pau mandado e cabeça de turco dos poderosos, simultaneamente ridículo e trágico:
Não vives como tristes escudeiros,
Que comem couves, nabos e mostarda,
E disto são às vezes cozinheiros:
Vestem serguilha e saragoça parda
Com cavar e suar ao frio, ao vento,
E caminham a pé sempre ou de albarda.
João Pinto Ribeiro esclarece-nos com minudência sobre o papel que desempenhava e sua patente na sociedade quinhentista. Escrevia ele para o Dr. Frei Francisco Brandão:
A outra gente de menos sorte se deu o foro de Escudeiros e de Cavaleiros. De modo que veio a ser o último grau de nobreza ou de seu privilégio este de Escudeiro e de Cavaleiro, que foi o primeiro e o melhor dele, pois ainda hoje em toda a Espanha o título de Cavaleiro abona o sangue mais calificado.
Adiante advertia:
Mudou-se isto com o tempo, e fez-se foro de Escudeiro e Cavaleiro fidalgo nos principais fidalgos até o tempo del-rei dom Sebastião. De então para cá desceu o título de Escudeiro e Cavaleiro a prémio de plebeios, que, sem que lhes pertença, se avantajam ou melhoram dos outros. Como também pelo arrancamento na Corte vai o fidalgo degradado para a África até a mercê del-Rei e o Cavaleiro por tempo cerca de dois anos.
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Era antigamente Escudeiro o mesmo que Fidalgo, já o disse. Depois padeceu baixa, que tantos outros títulos de honra e dignidade. Agora está reduzido a mais baixo foro de honra, dando-se, como consta do Regimento de Mordomos, cap. 10 e cap. 11, o de Escudeiro-Fidalgo por acrescentamento de moços da Câmara, e o de Escudeiro ainda aos Mecânicos.
Na Aulegrafia de Ferreira de Vasconcelos fala-se acidentalmente do Escudeiro Chiado:
-- Para alguma coisa havia de ter préstimo esse tal escudeiro Chiado...
-- Que coisa! Fala dum escudeiro como os judeus da samaritana. Como que não procedessem muitos dos mais baixos troncos!
O muitos é o colectivo abstracto de fidalgos. Quanto à consideração dos títulos expressava-se deste modo o mulato Afonso Álvares em disputa com o Chiado:
Assi que de sapateiro
Não pode vir cavaleiro,
Nem de regateira pobre
Pode nascer filho nobre.
A moralidade é que podia nascer de regateira rica.» ...
(continua)