...  «Mas, saltando do tom solene para o jocoso, no mesmo Camões vamos encontrar passagens de irreverência quanto às imunidades, sobrancerias, exempção e falácia dos fidalgos. Assim nos Disparates da Índia 

    Achareis rafeiro velho
    Que se quer vender por galgo...
    Diz que o dinheiro é fidalgo,
    Que o sangue todo é vermelho.

E mais adiante:

    Ó tu, como me atarracas,
    Escudeiro de solia,
    Com bocais de fidalguia 
    Trazido quase com vacas!

Quer dizer: como procuras deslumbrar-me, ó tu, escudeiro da trama, com histórias de fidalguia, quando vieste de guardar vacas...?!
Na mesma poesia verbera o fidalgo de fresca data, morto por desenterrar parentes de tomo. E a acerba censura aflora na Canção sobre os desconcertos do Mundo contra «aqueles que tomam por broquel de seus vícios e vida vergonhosa a nobreza dos antecessores, e não cuidam de si, que são bem piores».
Por outro lado, é como disparada flecha que na Carta de Ceuta encontramos esta passagem:
    Príncipes de condição, ainda que o sejam de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza; fazem com sua fidalguia com que lhes cavemos na fidalguia de seus avós, onde não há trigo tão joeirado que não tenha alguma ervilhaca.
Cavemos... Quem é susceptível de cavar? Fidalgos em fidalguias ou quem não é fidalgo em fidalguias?
Louva ainda aqueles que se nobilitam por mérito próprio em contra daqueles cuja basófia dimana de 

      ...encostados sempre nos antigos 
      Troncos nobres dos seus antecessores.

Também a carta que lhe atribui Juromenha: Tomei o Pulso... depõe contra prerrogativas. Aí se frisa que se os nobres primogénitos podiam seguir a carreira das armas ou qualquer outra, socorridos pela bolsa real quando pobres, a quem o não fosse só restava o recurso do sacerdócio, estado que lhe não sorria.
Numa palavra, a linguagem de Luís de Camões é pouco, muito pouco canónica ao tratar de fidalguia, no sentido abstracto. Pelo contrário, quando se refere aos nobres com quem fragua, inclusive aquele João de Melo, cabecilha do grupo do Mal-Cozinhado, seu comparsa na estúrdia, o tom da linguagem é medido, senhoria para aqui, senhoria para acolá, jamais de igual para igual. A mesma etiqueta usa, por exemplo, com João Lopes Leitão, seu contemporâneo em Goa. É a este, um dos figurantes da ceia sardanapalesca do papel rimado, que, sem embargo de o tratar de modo que envolve toda a cortesia, expõe a sua mísera situação.
Também poeta, atrevera-se a entrar uma vez furtivamente no redil do Paço da Ribeira reservado às damas. Decerto que não lhes foi entregar nenhum vilancete ou rosário para rezarem o terço. Entrou como o lobo no rebanho. Que donzela ou camareira abocanhou? Sabe-se apenas que foi preso e exilado.
Luís de Camões manteve com ele, poeta de água doce, relações pessoais sem que se despartisse da discreta distância. No terreno das letras podia aceitar-se o sainete do festim ao estilo de Trimalcião sem que cada um desmerecesse da sua qualidade.
A mesma vénia observa para com D. Manuel de Portugal, cujo arrimo busca em determinado momento. Sem ser servil, Luís de Camões nunca o é, palpita-se o homem que aceita o lugar de benevolência que lhe reserva a preestabelecida ordem das classes. Numa palavra, sobrenada nestas relações a cortesia sui generis do escudeiro-fidalgo. Para um príncipe das letras é de considerar.» ...
                                                                                                                                  (continua)