res cap 3.jpg

... «Faria e Sousa extractou do Registo da Casa da Índia, que não se pode deixar de admitir como havendo-o tido em sua mão, o seguinte assento:
«Fernando Casado, hijo de Manoel Casado y de Blanca Queymada, moradores em Lisboa, Escudero. Fué en su lugar Luis de Camões, hijo de Simon Vaz y Ana de Sa, Escudero; y recebió 2400 reis como los demas.» Os Casados não figuram no nobiliário. Por consonância, aqueles que se sentiram pungidos pela comichão da fidalguia foram levados a adoptar as armas dos Quesadas. Sem embargo, o filho era escudeiro, como se vê.
Deviam-no ser todos aqueles que em Lisboa afivelavam uma espada, viviam sem se saber de quê, não mostravam calos nas mãos.
A fidalguia de Luís de Camões, medida por este côvado, era tudo o que há de mais meia-tigela. No alvará de privilégio para imprimir os Lusíadas, não se acrescenta ao nome, como era de uso, a sua qualidade de escudeiro, ou cavaleiro-fidalgo da casa real. Lê-se, sim, na carta de perdão, embora ali o denominativo de cavaleiro-fidalgo da casa real seja ambíguo e muito provavelmente, a inferir da sua omissão no alvará de privilégio e na censura da primeira edição, se deva explicar antes ao pai de Camões. É certo que no alvará da tença se encontra, determinado o nome, o designativo de «cavaleiro-fidalgo de minha casa», mas não em nenhum outro instrumento. No alvará que manda reverter a tença de Luís de Camões em sua mãe, Ana de Sá, o poeta é qualificado de cavaleiro da minha casa, o tal título nobilitador de plebeios. Nestes instrumentos, para justificar a largueza, não se dissesse que era gastar cera com ruins defuntos ou porventura não criar maus precedentes, compreendia-se a menção honorífica a título meramente gracioso, admitindo que não houvesse para isso a razão imperiosa da sua legitimidade.
De vários passos da obra parece dever inferir-se que o poeta não contava com costados de nobreza. Não raro a condição de fidalguia lhe merece os seus sarcasmos. Pelo menos, falta-lhe com a sua homenagem, desde que não venha investida doutra recomendação. Aqui, além, refere-se à sua situação dum modo que afasta para longe o príncipe do Renascimento português que porfiam ver nele os adoradores do pechisbeque social.
Naquele soneto, considerado como as suas matinas de amor:

    Todas as almas tristes se mostravam...

deparam-se-nos estes dois versos do terceto final, o seu tanto sibilinos, mas em que parece transparecer o ressentimento da condição subalterna:

    Oh, porque fez a natureza humana 
    Entre os nascidos tanta diferença?!

Aludia o poeta à desigualdade de classe ou à sua desigualdade de meios? Posto que a expressão seja imprecisa, com certeza que se não trata aqui de disparidades de ordem física, isto é, bem ou mal parecidos. Por outro lado, afigura-se pouco razoável que em negócios de amor, estando frente a frente naturezas poéticas, intervenham os bens de fortuna ou o importantíssimo capital. Portanto, ali é questão de flor de altura, a uma banda, e personagem chã a outra, plebeia ou sem que a ilustrem avoengos.» ...
                                                                                       (continua)