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Abr24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/testamento-antologico-de-aquilino-8333

(...) «O autor dos Lusíadas, de cuja memória nos timbramos todos ser mais devotos uns do que os outros, foi excepcional no estro e comum na vida. Se o segregarmos do comércio das Musas, em tudo se nos revela o homem das três dimensões, mais arroba, menos quintal, como dizia Bertoldo. Era indispensável para a sua panteonizacão que, ardendo em exaltamento patriótico, fizéssemos dele um grande do nobiliário, primeiro nas batalhas, chichisbéu de princesas de sangue e, para remate, monstro de dignidade? Em envoltas assim maravilhosas apenas os Faraós entraram na imortalidade e ainda segundo os livros depositados nos sarcófagos.

E que mal havia? Havia que, à luz dos poucos e incontestáveis factos que se conhecem da vida deste grande homem, tudo na sua fisionomia se tornava contraditório e absurdo. Se pertencia à fina flor da aristocracia, como é que na qualidade de filho único era pobre como Job? Depois, nunca os monarcas deixavam corroer na pobreza aqueles que por direito genealógico ocupavam os primeiros degraus do sólio. Conspícua, a munificência absoluta começava por contemplá-los, antes de atender a qualquer outra necessidade. Não era difícil, porque a sua bolsa particular e erário público eram uma e a mesma coisa. Se Luís de Camões era tão colaço com os grandes do Reino, segundo pretendem Teófilo e o Dr. José Maria Rodrigues, como é que o desampararam no Tronco, a prisão ignominiosa, por um caso de lana-caprina, que até a data, que se saiba, jamais levara filho de boa mãe a semelhante lugar? Sim, porque o desampararam, a ponto que, se quis ver-se dali para fora, teve de alistar-se como soldado raso nas forças do Oriente e obter como viático necessário a tal recurso o perdão da sua vítima? Uma vez na Índia, como é que lhe não deram qualquer prebenda, o comando de uma simples fusta ou uma das infinitas melgueiras que no Oriente se reservavam a todos os depenados e fidalgotes de Portugal? Porque teve de recorrer a mesteres humildes, e segunda e terceira vez foi parar ao Tronco, em Goa, umas geenas, instrui o Oriente Conquistado, que escaparam à fantasia de Dante? E, ainda, como aconteceu que Diogo do Couto, «seu matalote», ao fazer escala por Moçambique o fosse encontrar em tal situação que foi preciso recorrer ao peditório para lhe acudir à miséria? Depois, tendo regressado ao pátrio Tejo, não mendigou uma tença na qualidade de inválido de guerra, não mendigaram por ele, não foi morrer num grabato de hospital, tão abandonado e mesquinho que poucos anos decorridos fartaram-se de andar às apalpadelas para descobrir o coval que lhe recebeu os ossos...?!» ...

 (continua)

publicado às 19:16