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... «Não seria assim, é claro, se tivesse a peito fazer vingar opiniões como se se tratasse das cores num anfiteatro. Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca.O meu ardor não é pelo facto em si. Luís de Camões, fidalgo ou plebeu, cortesão ou homem da rua, Céladon de moças da rainha ou fragoeiro de rascoas, morigerado ou amigo da arruaça -- tudo é pouco à face das Rimas e muito mais dos Lusíadas. O que me não consente o ânimo é que, havendo-me debruçado sobre o mar de dor, fel e vinagre, que foi a sua existência, sem tentar olhar até os limbos, se dê o processo por concluso, julgado como está por Caifaz. Então o poeta viveu e morreu pobre e miseravelmente, isto é, réprobo ao professor, ao poeta do Paço, ao sacerdote, ao áulico, e havíamos de aceitar que todos eles, inclusive os homens de bem, apagassem a torpeza cometida, que mais não fosse a torpeza de tê-lo ignorado, e viessem à praça exibir-se como seus epígonos? O mesmo seria aceitarem as almas crentes que a cambada que julgou Cristo, fariseus, saduceus, potestades do sinédrio e da sinagoga, saíssem à varanda a limpar as mãos na toalha branca, ilibando-se:
  -- Vejam, Vejam! Não o matámos. Isso foi um pesadelo. Deixámo-lo bem ágil, bem fresco, bem disposto subir ao Céu.
Este Camões troca-tintas, aparado nos boléus por colchões de indulgências e de amor -- amores aristocráticos --, convinha, sim, convinha, e seria caso a fechar os olhos se não fosse um escárnio daquilo que há de mais sacrossanto no mundo, a miséria do homem. A jolda fanática que aborrece que lhe bulam com as ideias feitas, as ideias anquilosadas no bestunto, recebidas de sua avó torta, e me saiu já umas tantas vezes a caminho, não há-de gostar desta autópsia tardia. Fico na serenidade de sempre. Também se fosse a responder com uma pedra a quantas me atiraram do babaréu, teria de ir ao ar a parede toda do meu quintal.»

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