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Mai24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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... «Em abono de Coimbra, como terra natal ou pelo menos a cidade em que Luís de Camões estudou, residiu e teve os primeiros amores, o que podia ser possível, oferece-se à consideração a letra duma poesia:

    Vão as serenas águas 
    Do Mondego descendo,
    E mansamente até o mar não param
    ... ... ... ... ... ... ...
    Nesta florida terra
    Leda, fresca e serena, 
    Ledo e contente para mi vivia...

Esquecem-se porém que, descerrando acto de presença, se pode referir a outro, escrita para outro, traduzindo os sentimentos e ansiedades doutro. Numa palavra, o poeta poderia investir-se em segundo figurante, já porque estava nos moldes petrarquistas, já porque versejasse a pedido, por encomenda, por sainete, por desenfado, como era costume e de que dão sobejas provas os Cancioneiros.
(...)
É certo que Domingos Fernandes, na dedicatória das Rimas, votadas à Universidade, de que era o livreiro oficial, o dá como nado em Coimbra e nutrido aos úberos de sua mãe natural, a Universidade. Mas o testemunho é suspeito e, para o caso, único. Compreende-se que, pondo o livro no supedâneo de Minerva, com o fim de obter a «proteyção», lho consagre. Era do protocolo. Este homem, além disso referia-se a um facto transcorrido havia perto de século, acerca de cuja fidedignidade muitos poucos vivos poderiam responder. Em contra deste há os testemunhos terminantes de Manuel Correia e de Severim e, à contraluz, o de Pedro de Mariz nos Diálogos de Vária História. Havendo com efeito o pai dele editado os Lusíadas com os comentários de Correia, não rectifica o asserto ali emitido. Poderia argumentar-se que também não desmente o tal Domingos Fernandes, livreiro, mas para o caso, a ele, na qualidade de bairrista à l'affut, é que pertencia reforçar o que este aventurara ou confirmá-lo pelo menos.
Demais, este industrial do livro, precursor dos Larousse, não merece grande crédito, falho como era de escrúpulos. Um dos autores que explorou a fundo foi o nosso poeta. Em 1615, espremendo com desplante a mamadeira, lançou: Obra do grande Luís de Camões, príncipe da poesia heróica, Da criação e composição do homem, Lisboa, Pedro Craesbeck. D. Rodrigo da Cunha, bispo de Portalegre, advertiu-o do engano. Editando as Rimas em 1616, dedicadas ao mesmo prelado, que o ajudara a custear as despesas, via-se obrigado a confessar o logro, acrescentando a respeito dos três cantos do poema alheio: «Mas como os tinha impressos, por ser obra muito boa e com o nome do autor a deixei ir estando esta obra começada.» Quer dizer, sem embargo da advertência, volveu a dar naquela estampa como sendo de Luís de Camões a obra dum outro. Para cúmulo, a justificação era falaciosa, porquanto o poema vem nas Rimas ao fim da paginação.
Como bom negociante, não era com o nome do vero autor, André Falcão de Resende, ilustre desconhecido, que despachava a fazenda. Toca a relegá-la ao nome de Camões, com horror de Faria e Sousa que bradou à del-rei: Mal criado hombre fué todo aquel a quien se puso en la molera que eran de Luís de Camoës aquellas malditas coplas!
Em matéria de lisura, Domingos Fernandes fica identificado.» ...
                                                                                                      (continua)

publicado às 20:20