


... Foi Manuel Severim de Faria o primeiro que abordou com candidez de alma e gravidade majestosa, requisitos do perfeito genealogista, o tema da fidalguia em Luís de Camões. E rompeu deste jeito: A família dos Camões é natural do Reino da Galiza; seu apelido dizem alguns que é alcunha do pássaro Camão, a quem os antigos chamaram Porfírio, celebrado de muitos autores pela admirável propriedade de morrer vendo cometer adultério contra o senhor da casa.
O próprio Camões, parafraseando Alciato, o rememora nas suas redondilhas. Cala todavia que o seu patronímico tenha ali o étimo, já porque lhe faltassem as fumaças de fidalgo, ou a derivação seja tão falaciosa, que não lhe acudisse à rima:
Experimentou-se algum'hora
Da ave que chamam camão,
Que se da casa onde mora
Vê adúltera a Senhora,
Morre de pura paixão.
Este Vasco Perez de Camões, ou Pires de Camões, de quem o poeta era bisneto, segundo os linhagistas de boa vontade que procuraram nobilitá-lo, ao tempo condição sine qua non de ser gente, tem na Crónica de Fernão Lopes assento lavrado de troca-tintas pelo papel que representou no palco movediço das realezas peninsulares. Tendo abraçado a causa do Mestre, rompeu com ele para seguir a bandeira de Castela quando se lhe afigurou votada a melhor sorte, e àqueles que lhe censuravam a versatilidade saiu-se a dizer:
-- Valha-vos Deus, boa preitezia fazia comigo o Mestre! Mandei lá meu padre Gonçalo Tenreiro com alguns desembargos e não me tornou cousa nenhuma. Inda se me trouvera mil dobras emburilhadas num trapo, guardar-lhe-ia preitezia. Pois não me trouxe nada, não curo de lha guardar.» ...
(continua)