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Jun24
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto

... «Os lentes é que não se resignavam a transitar para Coimbra e representaram a el-rei nesse sentido. As relações entre as duas cidades eram escassas. Enquanto ali esteve a Corte, o Reino careceu de alicerces perduráveis e a linha dinástica não adquiriu rigidez e fortaleza que a pusessem a salvo de investidas e sobressaltos, Coimbra e Lisboa mantinham estreito contacto, como os dois pólos que eram do Reino. As questões pendentes resolviam-nas estas duas cidades.
Vinham e iam homens de armas, e as alçadas civis estabeleciam uma vascularização oficial, cuja sede para o Norte não era outra senão Coimbra. Por vezes os litígios resolviam-se à mão armada nos campos intermédios. Com o andar dos tempos e o reforçamento do sentido dinástico, o papel mediador de Coimbra atenuou-se. Debaixo do ponto de vista comercial, o Porto suplantou-a. De resto, a via marítima, que começou particularmente a ser cursada no século XVI, aproximou esta cidade e a capital em prejuízo de Coimbra. Esta passou a ser um ponto na província de segunda ordem e de importância mediata como Braga e Évora.
Assim minguada de funções a encontrou D. João III. Compreende-se que aos lentes não sorrisse nada sair de Lisboa. Àquela altura, com as locandas más e inóspitas, os caminhos velhos do tempo do rei que rabiou infestados de ladrões, Coimbra ficava lá no cabo do mundo.
A gente está habituada a ler nos livros estas descidas de gerifaltes, lá no alto Mondego para o Tejo, de guerreiros, reis e bispos. A ignorância de perspectiva em história -- feita de tempo, espacidão e de todos os factores de ordem económica -- impede de observar estas coisas no seu vero dimensional. Ir duma destas cidades para a outra era sempre empresa séria. Foi preciso que os estrangeiros, a começar por Murphy, no-lo viessem dizer.
Propuseram ainda a el-rei Torres Vedras, antiga vila real, para sede da Universidade. Ficava a dois passos de Lisboa, e tanto os Paços Velhos como os Paços Novos se adaptariam facilmente a estabelecimentos escolares. Acrescia que a Universidade possuía ali a Quinta da Palma, e outros bens de raiz. Nada o demoveu. Além de pertinaz nos seus intentos era voluntarioso. Contratou lentes no estrangeiro, que vieram ganhar honorários de grão-duque. Quanto aos velhos mestres, quase todos renunciaram ao magistério, sendo um deles Garcia de Orta que, dois anos depois, embarcava para a Índia. Poucos acompanharam a Universidade, mas um deles foi o grande Pedro Nunes, com vencimentos que, somados a outros réditos, atingiram a continha calada, segundo o cálculo de Fontoura da Costa, de cento e seis contos anuais. D. João III não promoveu por então a reforma dos estudos; não encontrou locais apropriados; serviu-se dos gerais de Santa Cruz e dos próprios aposentos do primeiro reitor. Mas levou a sua avante.» ...
(continua)
publicado às 19:03