
... «Pergunta-se: apenas em Coimbra era possível que Luís de Camões recebesse a cultura de que deu exuberantes provas, mormente nos Lusíadas? Demonstrando-se a proposição, poderemos pronunciar a favor da cidade universitária do Mondego o que se diz da Terra em relação àqueles planetas nos quais a vida é impossível, ou tida como tal, por falta de atmosfera respirável: só ali se lhe teria proporcionado beber uma tão completa universalidade de conhecimentos. Mas será assim?
Tendo nascido em 1525, dão-no os seus biógrafos-panegiristas como matriculado num dos colégios de Santa Cruz, sem dizer qual, com a idade de doze anos. Já neste cálculo os dados são falseados a favor da demonstração. De modo geral, aprendia-se tarde a ler e a escrever. O ensino do alfabeto à saída da puerícia é prática moderna. As inteligências do tempo caracterizavam-se pelo serôdio com que desabrochavam. Rompia-se a estudar lá para os quinze anos, ao dobrar da meninice para a puberdade, quando a voz começa a engrossar e os pelitos ruços apontam no lábio. Mulheres que soubessem ler e escrever eram raras. E essas seguiam o caminho que desemboca no claustro. A infanta D. Maria, irmã de D. João III, aprendeu gramática em obediência à conjura maquiavélica do monarca que tratou de cultivar na pobre uma virago. Se estudou latim com o Rev. João Soares, foi para melhor poder compenetrar-se da ciência mística dos doutores da Igreja e particularmente das Santas Escrituras. Declara-o com toda a lisura o seu candidíssimo biógrafo.
Aos doze anos ainda os escolares burrinhavam no abecedário ou quando muito na Arte de Latim do Pe. D. Máximo. Os estudantes saíam, mercê do odioso cartapácio, a detestar a Roma imperial e, salvo o latim-latão de Eutrópio para cá -- et pour cause --, todos os seus áureos autores.
Agora admitindo que Luís de Camões viesse estudar para Coimbra, as datas que os biógrafos fixam para essa estada coincidem com o período de desorganização que atravessou a Universidade logo após a transferência de Lisboa.
Essa decantada reforma trazia em si um gérmen de catástrofe. Por sorte não teve eclosão imediata. Levou uma dezena de anos a borbulhar. Bem seguramente que D. João III não procedeu movido exclusivamente pelo empenho de subir o nível da instrução no Reino. Dir-se-ia que entre ele e os Estudos Gerais, ou melhor, entre ele e a cultura que se ministrava na antiga Universidade, havia contas a ajustar. Que houve testilhas é sabido.»
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