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Jun24
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto

... «Latino Coelho é de parecer que em Lisboa não faleciam escolas para Luís de Camões, à semelhança de outros notáveis espíritos, alcançar em matéria de conhecimentos o grau mais alto. Em D. António da Costa se lê também que a possibilidade de se formar em Lisboa não era menor do que em Coimbra.
Fosse como fosse, Camões era um espírito de eleição, servido por um cabedal enciclopédico raro. Só muito pela rama lhe assentam estas palavras de Storck, discutíveis porventura, mas reflectidamente germânicas:
Saber muito era o característico daquela era; a instrução enciclopédica o sonho dourado dos humanistas. Ser versado em todos os campos da ciência humana ou fazer alarde de o ser era o costume dos poetas quinhentistas, que bordam os seus versos com dados e factos, tanto mais preciosos quanto menos sabidos, ostentando alusões escuras, figuras eruditas, comparações enigmáticas, raros paralelos e ignotos exemplos de história e mitologia de gregos e romanos, a fim de muito advertidamente fazer pasmar o leitor ingénuo, que costuma ficar perplexo diante de tanta erudição alexandrina!
O primeiro lustro em Coimbra pode considerar-se, pedagogicamente falando, safro de todo. O quadro dos professores era insuficiente e foi preciso mandá-los vir de toda a parte a poder de dinheiro. Veio uma revoada de nomes ilustres, sem valer todavia os grandes nomes da Sorbonne, de Bolonha, de Salamanca. O certo é que a prata da casa, como se diz, essa com que Luís de Camões se poderia ter servido, não correspondera ao escopo nem às necessidades reconhecidas da cultura, pois que foi preciso importar catedráticos.
Pode calcular-se o báratro que não seria a Universidade reformada, nos seus alvores. Só em 1544, as diversas cadeiras, distribuídas por Santa Cruz e no Paço, puderam agrupar-se debaixo dum só e mesmo tecto. Depois desta obra de unificação é que pensaram executar o principal do programa, pode dizer-se: a fundação do Colégio das Artes, destinado ao estudo das línguas clássicas e humanidades, como habilitação preparatória para o ingresso às Faculdades. Em 1548 André de Gouveia entrou a reger este estabelecimento de fundamental importância, juntamente com o corpo de mestres que recrutara em França. Camões não pôde beneficiar das disciplinas ali processadas porquanto, no consenso geral dos biógrafos, já se encontrava em Lisboa por 1544, tendo acabado os estudos, segundo Juromenha, em 1542, desavindo com o tio e sem haver tomado graus, segundo Storck.
Foi curto o fulgor da Lusa Atenas. Em 1555 os jesuítas, do mesmo modo que já tinham a mão sobre as Faculdades, apossavam-se do Colégio das Artes, submetendo-o aos seus métodos de rigorosa escolástica, e os professores eram deferidos ao Tribunal do Santo Ofício. Poderia dizer-se que D. João III, na sua reforma universitária, tivera em mira, menos pagar-se da falta de boa cortesia dos velhos lentes, que duma aversão entranhada pela cultura em geral.»
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publicado às 19:21