(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de junho de 1993)
Em meio ao angu do cinema comercial contemporâneo, Tomates verdes fritos, apesar de um diretor inexpressivo (Jon Avnet), aguçou o paladar dos espectadores com uma bem condimentada mistura de ingredientes: humor e delicadeza ao lado de racismo, velhice, violência.
Esperavam-se, então, verdadeiras iguarias do livro de Fannie Flagg, que a editora Globo está publicando com o longo título original, Tomates verdes fritos no Café da Parada do Apito ( Fried green tomatoes at the Whistle Stop Cafe, EUA-1988, em tradução de Vera Caputo). Ao saboreá-lo, entretanto, o leitor é obrigado a constatar que o cardápio apurado é mais apurado.
Flagg escreveu um romance em vinhetas que o leitor devora e digere rapidamente, até perceber que certos temperos foram excessivos, que nem sempre uma mistura agridoce cai bem e que diversos pratos ficaram mal passados, longe do ponto.
Pois se acaba crendo que não existe lugar melhor para se viver que o Alabama. É pobre, é reacionário e extremamente racista; contudo, se uma menina negra cai doente, busca-se um elefante no caixa-prego para alegrá-la; aumentam os sem-teto? distribui-se comida roubada dos trens, com a conivência da Lei; uma relação amorosa explícita entre duas mulheres (no filme interpretadas por duas atrizes muito especiais, Mary Stuart Masterson e a adorável Mary-Louise Parker)? Tudo bem, encara-se com naturalidade—tanto que, após a rebelde Idgie livrar do marido brutamontes a doce e grávida Ruth, nasce o filho desta e os pais lhe dizem, como se ela fosse o pai: é a sua cara!!!!!???? È crível?
Vários episódios foram enriquecidos pelo filme: a morte de Buddy, irmão-ídolo de Idgie, o julgamento dela pelo assassinato do marido de Ruth, o próprio assassinato. E, se procederam a uma atenuação impertinente do picante da relação entre as duas, muito mais ênfase e força foi dada à vida em comum das duas no Café, além de se mostrar melhor os efeitos do tempo sobre os laços afetivos, talvez o grande achado do filme e que faz com que ele escape à pieguice ou sentimentalismo à la carte.
Embora a autora seja hábil em concatenar tempos diversos, ela faz isso à custa da personagem contadora da história, Ninny, a qual cumpre essa função muito mais na versão cinematográfica, onde era interpretada, com supremo encanto, por Jessica Tandy (num grande dueto com Kathy Bates). No romance, ela está bem próxima de ser uma chata.
As personagens negras são acompanhadas em toda sua longevidade, mas a qualidade dos episódios é gastronomicamente discutível. Melodrama com tempero politicamente correto não garante boa refeição literária. Foi fritura demais por fora, e muita coisa crua por dentro.
É uma pena, pois ao resgatar um mundo submergido pelas transformações sociais e pela crescente voz das minorias, Tomates verdes fritos no Café da Parada do Apito inscreve-se numa das vertentes mais ricas da ficção norte-americana recente: aquela escrita por mulheres com um sopro épico peculiar capaz de abranger décadas, revivendo mentalidades e cotidianos. Não histórias “femininas”, e sim histórias recontando a História com o olhar da mulher, o que já rendeu alguns livros poderosos, a meu ver, como Machine dreams- Sonhos desfeitos, de Jayne Anne Philips, e Love medicine- Feitiço de amor, de Louise Erdrich.
O melhor de Tomates verdes fritos etc e tal é essa arqueologia afetiva, esse material rico e não-trabalhado: Fannie Flagg ainda não é uma chef, mas pode vir a ser uma boa cozinheira, capaz de estimular o apetite do leitor.






