(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 1998)

Nos anos 80, apareceu a escritora mais bonita da atualidade, a norte-americana Louise Erdrich, descendente da mistura de índios com alemães em Dakota do Norte. Além de bela, seus romances eram impressionantes.Se o leitor superar os horríveis títulos, Feitiço de amor (“Love Medicine”) e A rainha da beterraba (“The Beet Queen”), conhecerá duas das melhores obras de ficção da década passada.

Agora, anos depois, um novo trabalho dela é publicado no Brasil: Histórias de amor ardente (Tales of burning Love: EUA-1996, traduzido por Ary Quintella). Terá Louise Erdrich sobrevivido à dácada de 80?

Love medicine, que eu particularmente adoro, começava com a morte de June Kashpaw numa tempestade de neve, após um encontro amoroso com um homem desconhecido. O restante do romance era a história da família de June, que vivia numa reserva indígena. Histórias de amor ardente conta a história de Jack, o homem com quem June passou seus últimos momentos, confirmando a tendência erdrichiana de repetir os mesmos personagens em seus romances. Ela também mantém o mesmo tipo de construção narrativa, com capítulos que se voltam para um determinado personagem, o qual fornecerá o ponto-de-vista predominante naquele passo da história.

A diferença é temporal: enquanto Love medicine & The Beet Queen usavam um largo espectro temporal (recuando até os anos 30), o novo livro ocupa-se basicamente de dois anos da vida de Jack Mauser (94 e 95), quando ele tem de se confrontar com quatro esposas: Eleanor, Candice, Marlis e Dot (esta última já vinha dos livros anteriores também).

Jack está atolado em dívidas. Quando sua casa pega fogo, ele foge e permite que pensem que morreu no incêndio. Suas ex-esposas reúnem-se para o funeral e acabam atoladas na neve no mesmo carro, numa outra tempestade, bem parecida com a que matou June. Sobrevivem sherazadianamente contando histórias sobre Jack umas para as outras (há uma outra pessoa no carro, um homem, contudo sua identidade é uma surpresa da trama rocambolesca).

O livro é feito de fogo e gelo, não só no sentido simbólico que essas duas palavras podem tomar no campo dos sentimentos como também no sentido mais literal: não faltam congelamentos (Jack quase morre congelado duas vezes) e incêndios (há vários); temos até um idoso agente funerário, pai de Eleanor, que resolve cremar-se junto com a esposa, quando esta morre.

Chega a ser bizarra a quantidade de coisas que acontecem a Jack: além dos congelamentos e de quase morrer assado no porão de sua própria casa, ainda lhe cai em cima a pesada estátua de pedra de uma virgem, um fato que pode ou não ter sido previsto por uma freira candidata a santa, pouco antes de ser fulminada por um raio na sua frente.

Na terceira parte da narrativa (na qual as mulheres compartilham histórias), a figura de Jack escapa do plano individual: ele se torna uma encarnação arquetípica do masculino, com a qual as Mulheres têm de haver-se. E aí está o calcanhar-de-aquiles de Histórias de amor ardente.       Quem deve ter se irritado com o livro, caso o tenha lido, é o grande Harold Bloom, na sua sempre renovada denúncia contra a escola do ressentimento que infestou e assolou o campo da literatura: de repente, os valores culturais que predominavam (o macho, a cultura ocidental, a raça branca) começaram a ser relativizados por uma visão multicultural, mais politicamente correta. E, pode ser injusta essa opinião, entretanto há um lado “escola do ressentimento” quase indisfarçado na condução do romance de Louise Erdrich. As quatro mulheres são sempre vistas de uma forma apologética e condescendente, mesmo nas suas maiores loucuras, enquanto que Jack  vai ganhando um crescente viés caricato, quase cômico, ao longo da trama. Tirando o seu lado “simbólico” de representante do “macho” em crise, e decadente, ele sofre grande diluição como personagem, após os primeiros capítulos, onde era uma figura bem mais interessante sob o ponto-de-vista literário.

Num todo irregular, há trechos lindos, onde ela descreve uma certa desolação que existe nas relações mais íntimas, e que lembram os melhores momentos da obra de Sam Shepard (autor de  Paris, Texas & Cruzando o paraíso); em compensação, há trechos em ela lembra os piores momentos de Shepard (como Louco de amor). Há também cenas engraçadíssimas como a da mãe de Eleanor sendo surpreendida pelo marido quando estava nua em cima de Jack, para aquecê-lo, após um de seus congelamentos; ou, então, a cena em que Jack tenta roubar o carro de Candice, e ver o filho, mas acaba tendo de enfrentar uma temerária babá, que parece ter absorvido todos os filmes de ação e pancadaria do mundo, fazendo-o passar maus bocados.

Se,ao fim e ao cabo, o leitor me perguntar se gostei do livro, a resposta, infelizmente, é: não. Histórias de amor ardente é uma experiência insatisfatória porque, nos seus piores momentos, Louise Erdrich trocou o olhar feminino sobre as coisas e a História, que alimentava e dava poder a Love medicine & The Beet Queen, por meras histórias femininas. Pode não parecer, todavia são coisas bem diferentes. Oxalá a bela Erdrich que, além de mulher, pertence a uma minoria étnica, tranque a matrícula na escola do ressentimento e vire o milênio como um dos grandes nomes da ficção norte-americana, como ela parecia destinada a ser.

(com relação às questão aqui abordadas, acesse também:

https://armonte.wordpress.com/2011/02/20/a-deformacao-da-psique-masculina-o-homem-visto-pelo-homem/)

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