CHRISTINA ROSSETTI

meigos grandes nada cépticos secos

os olhos de corça esgarçada à roda

lança

longos louros soltos em vagas

breves nunca crispadas cabelos

esparge

Christina mansa mente amante

pré-rafaelita ao leito recolhe se cobre

semelha

receio tolhe branca túnica

tersa forma de seios ao canto

paira

aflora sobre auréola a sombra

de Gabriel o irmão. também faz versos

concita

com-paixão.

inédito

MULHER AO MAR

MAYDAY lanço, porque a guerra dura

e está vazio o vaso em que parti

e cede ao fundo onde a vaga fura,

suga a fissura, uma falta – não

um tarro de cortiça que vogasse;

especifico: é terracota e fractura,

e eu sou esparsa, e a liquidez maciça.

Tarde, sei, será, se vier socorro:

se transluz pouco ao escuro este sinal,

e a água não prevê qualquer escritura

se jazo aqui: rasura apenas, branda

a costura, fará a onda em ponto

lento um manto sobre o afogamento.

in Sulscrito, revista de literatura, número 1, verão de 2007

ÉMULOS

Foi como amor aquilo que fizemos

ou tacto tácito – os dois carentes

e sem manhã sujeitos ao presente;

foi logro aceite quando nos fodemos.

Foi circo ou cerco, gesto ou estilo

o acto de abraçarmos? Foi candura

o termos juntos sexo com ternura

num clima de aparato e de sigilo.

Se virmos bem ninguém foi iludido

de que era a coisa em si – só o placebo

em certo excesso que acelera a líbido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo

o zelo de que nada fosse dito

e quanto quis tocar em estado líquido.

in Sulscrito, revista de literatura, número 1, verão de 2007

Margarida Vale de Gato