Michele Soares Como dizer quem falta? À luz do discurso amoroso de Roland Barthes, Mayara Brandão versa sobre a ausência nos poemas de “Matéria escorregadia” (Editora Patuá, 2023). Seu livro de estreia pode ser lido como uma cadeia de tentativas de dizer alguém que não se deixa apreender, uma vez que insiste sempre em escapar, ou melhor, escorregar pelos dedos. Chegado o fim, os vínculos criados com o objeto amado não se desmancham no ar com a partida inesperada, para a qual nada pode nos preparar — ao contrário, a partida só estende os fios para mais longe, deslocando as arenas de busca e encontro com o outro para as regiõesdo pensamento e da imaginação. Assim, somos deixados para viver às voltas com o mistério e o desejo de saber o quê faz o outro — “ter que lidar com todos esses anos sem você / (me acostumar com a sua ausência) / não saber o que você lê ou escuta ou come ou assiste de maneira deslumbrada”. Mas acontece que Mayara não se resigna à falta e é dessa revolta que nasce “Matéria escorregadia” — “Não consigo me adaptar a sua ausência. Não consigo.”. O próprio livro é o meio pelo qual exige do outro escorregadio um resquício sólido, alguma coisa que fique, que resista ao tempo e à partida, uma insígnia concreta que possa se provar como um vestígio dapassagem do objeto amado — algo duro e palpável como um amuleto, um disco ou ainda o gosto por pagode. Logo nota-se como a ausência não é versada como falta vaga e abstrata, mas, ao contrário, se permite verificar ao rés do chão, no miúdo da vida cotidiana e suas materialidades — como quando no poema chamado “domingo”, ao olhar pela janela, vislumbramos ora uma samambaia, ora um rosto a nos encarar de volta, poema que inspira o design gráfico de capa feito por Roseli Vaz. Tentando falar a quem não atende – “então / crescer daria / nisso? / nesse amontoado / de chamadas / telefônicas / que estão / perdidas?” —, apesar da barricada de silêncio erguida entre amante e objeto amado, o outro é convidado a fixar morada nos versos de Mayara, atravessando sua poética do início ao fim. Assim, o ausente se faz presente por meio do verbo e graças a memória. Por fim, mas não menos importante, a ida do objeto amado, apreendida em fotografia ou em direção ao fisioterapeuta, deixa “a certeza de que as coisas caminham para frente”. Apesar da experiência da ruptura, difícil tanto no campo da vivência quanto no campo da verbalização, existe vida após a partida. Mayara e sua “Matéria escorregadia” talvez sejam a prova viva dessa promessa de continuidade apesar de. Apesar dos pontos finais.